Palavra Chave de Boca

18 março 2014, Comentários 0

sol com raiosNinguém negue que tem toda a autoridade sobre a própria vida. Não tem marido, filho, mãe, pai, vizinho que tenha poder sobre a vida da gente. Às vezes a gente autoriza os outros a meterem a mão no nosso painel de controle, mas ninguém tem poder sobre nós.

Sozinho, porém, a gente tem que fazer a manutenção: tem a ferrugem, o desgaste, o afrouxamento das peças. E isso se dá tão de vagar que a gente não nota o entrave, até que: trava!

E a gente chora, e a gente reclama, culpa o marido, o filho, a mãe, o pai, o vizinho – mesmo sabendo que eles não tem de fato, nada a ver com isso. Mas se está travado tem que ter um culpado! Bom, a gente se engana por um tempo, e depois tem duas alternativas: não fazer nada ou ir buscar um desentrave.

Na primeira hipótese, bom, acostume-se com o barulho, com a ferrugem e com o mau funcionamento permanente. Tudo vai piorar até o limite do que nem se pode imaginar, tudo fica cada vez mais encalhado e duro até que a gente mesmo endureça e fique cético. Daí tem que começar do zero de novo.

Na segunda hipótese tem que se ter vontade e paciência. Mas uma das coisas mais bacanas que tem é ir perguntar para os outros como é que eles resolveram quando uma peça afrouxou na vida deles e começou a estragar o funcionamento de todo o resto. Ah, não se trata de dar o timão na mãos dos outros, não se trata de sair da sala de controle e deixar alguém resolver o assunto – ninguém consegue, aliás. Falo de quando a gente vai até uma outra pessoa – viva ou morta há séculos, próxima ou muito distante, alguém em 3D ou ao telefone, em livro, na internet – e vai a ela em busca de uma palavra.

E de vez em quando te oferecem a palavra chave de boca! Simplesmente você lê e tudo o que estava frouxo se ajusta bem na medida. Aquilo que você não entendia ou que atrapalhava simplesmente se afina com o resto do instrumento e tudo começa a soar maravilhosamente.

Foi assim hoje eu ler um pequeno texto de um sujeito chamado Tiziano Belucci. Desde o título que fui eu quem traduziu, e que só fala mesmo em italiano: ‘A Coragem do Herói Solar’. Tomo a liberdade de reproduzi-lo aqui. Hoje este texto foi chave de boca!

A Coragem do Herói Solar (ou Cuor-raggio do Herói Solar)

Quem tem coragem é, na realidade um portador de um raio do sol no coração. (Coraggio – ‘Coração-raio’ em italiano). Aquele que irradia o bom e o belo por toda parte.

Parar de cultivar o ódio, transformar o mau humor em atos de perdão, renunciar a afirmar um ponto de vista marginal, mudar hoje as ideias do passado, reanalizar as próprias ações, pedir desculpas, tudo isso são ‘atos heróicos’ extraordinários, atos dignos de um herói solar.

O herói não é aquele que fala do ‘bem’ e vê tudo positivo. Este é um ingênuo. Nem pode ser um herói aquele que cumpre atos de força, ou o que é volúvel e caprichoso.

Mas onde estão os originais, os “especiais”?

Onde estão aqueles que não imitam a ninguém, que criam o novo a cada momento, que ontem me odiávam e hoje são capazes de me amar? Onde estão os que podem maldizer-me agora e bendizer-me em um minuto?

Onde estão aqueles que perdoam, que não se “fazem de duros”, mas se fazem os “fortes”, aqueles que dizem: “saibam que tudo o que falei era um absurdo, uma grande estupidez?” Mas onde são essas esplêndidas criaturas? Onde estão os grandes artistas da vida?

Onde estão os impresvisíveis? – não aqueles que fazem o estravagante repetindo sempre na mesma preguiça interior – onde estão aqueles que dizem “meu amor, quanto te odeio” e depois “detestável, quanto te amo!”

Preciso me sentir maravilhado. Procuro pessoas maravilhosas, capazes de me surpreender! Procuro humanos: não que digam alguma coisa, mas que sejam alguma coisa.

Viva o coração do sol que vive naqueles que são capazes de irradiar o bem pelo mundo!

Tomara que o texto ajuste aí alguma coisa para você, também.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.