Onde Está o Presente

13 fevereiro 2013, Comentários 1

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Vocês já viram criança? Já prestaram atenção em como elas são? Criança não carrega pesos sobre o que fez ou deixou de fazer, tampouco planeja o dia de amanhã. Criança não se preocupa com a possibilidade de não haver comida ou casa no dia seguinte. Vive na plena confiança da providência. Para criança o mundo é feito daquilo que a mão alcança no momento presente. Ela não anseia por nada mais do que aquilo que está ali, e por nenhum outro tempo. Ela vive no agora.

Quem não se lembra da mãe chamar já tarde, o sol se pondo, para entrar, tomar banho e jantar e de ter gritado para ela lá de fora: só um pouquinho! Já vou! E nunca que a brincadeira acaba, porque o brincar é no instante da vida, no presente e eterno, sem tampa de fim.

O presente é efêmero. Se você for tentar encurralá-lo no seu pensamento ou segurá-lo com o dedo em um calendário, ele some. Vira passado se era o seu presente vivido, ou futuro se, por precaução e certeza da ligeireza do tempo, você escorregou o dedo para frente um tantinho.

O presente é mais fino que o fio da navalha e vai-se materializando com a nossa respiração, enrijece em um átimo e cristaliza em passado. No entanto, tendo o presente esta característica tão fugaz, é só nele em que vivemos.

O presente, quando se olha do outro lado da sua transparência, é a eternidade. Nunca se consegue, por mais rápido que seja o movimento, espetar uma agulha onde ele começou. Nem se consegue determinar o momento em que acaba. Sendo assim, ele é a eternidade manifestada.

O curioso é que sempre estamos caçando bolhas de presente nas quais conseguiremos um pouco namorar, escrever ou terminar um trabalho.Marcamos 10 dias de presente para setembro, nossas férias!

Permitam-me admitir por todos nós, mas nossa relação com o tempo é meio torta. O presente é o instante em que se vive, em que se percebe o mundo, em que se toca e se modifica. Mas não dá para não reconhecer momentos de tanta vida – que já passaram, aliás, mas que carregam esta qualidade de presente e que ficaram imprensados entre as paredes cristalizadas do passado. Mas são frescos e arejados. Dão-nos a impressão de que poderíamos entrar para respirar neles uma hora dessas, porque não se ancoraram demais como passado.

Olhe para as crianças: lá estão elas fazendo um cozinhadinho em uma latinha. Uma sai para buscar mais comidinha, a outra mexe solenemente uma mistura de água, galhinhos, frutinhas e folhas na lata. Tudo é certo, preciso, confiante e seguro. Na brincadeira não há espera, nada. Nem se quer tirar muito dela depois. Mas é na brincadeira que vivemos plenamente o presente. E a brincadeira vai-se escasseando com a passagem dos anos e com o amadurecimento da criança, deixa de transformar-se como foi até uma certa idade e vai, simplesmente, deixando de existir.

Passamos a viver no presente raramente. Vivemos passado e futuro, marcamos o presente para horas certas e o vivemos esparso, às vezes e uma conversa, muitas vezes na angústia, numa espera.

É melancólico porque qualquer um percebe que viver no presente é saudável. Mas para os adultos que carregam a memória e o cálculo, é possível viver presentes longos, também. No cotidiano e pela própria vontade, podemos ouvir com toda a dedicação uma outra pessoa, ou podemos cozinhar, lavar o carro, fazer crochê, amar e enfim, experimentar as coisas sem a perspectiva do erro, do mesmo jeito que brincam as crianças.

De repente podemos nos dar conta que estamos no meio de uma bolha flutuante de tempo presente, que aprendemos a viver na eternidade.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    Estar presente = Transformar o momento em ¨sempre¨Aplicar-se com profundidade.