Ode ao Caminho

27 fevereiro 2014, Comentários 0

caminhoAssisti maravilhada a uma palestra de uma equatoriana, pedagoga e missionária da igreja católica. Uma acadêmica de a vida toda que teve a graça de encontrar pelo caminho um idealista da educação. Essa graça, ao que me pareceu, fez com que ela se transformasse inteira. Fez com que ela pensasse o que é ser professor diante de alunos.

E a palestra é inteiramente bonita – e imagine que ela já passou muitos e muitos anos trabalhando como professora, tenho a impressão que muito mais como professora de jovens e adultos em universidades, aliás. e sempre em países com questões políticas pesadas ou graves problemas morais.

Algo de lindo da palestra, mesmo, é a inabalável certeza com que ela fala. Assim simplesmente e do alto de muito estudo e experiência, ela fala sem temor nenhum de estar minimamente errada. Eu gostaria de deixar claríssimo aqui que não existe ironia nenhuma no que eu digo. Eu realmente admirei esta mulher, a Professora Juana Grey.

Ela fala de ser professor diante de alunos, de ter certezas, de ser uma autoridade, de conhecer sempre o conteúdo, de causar uma comoção nos alunos. Fala de ser o adulto que carrega uma tradição diante dos alunos  – e eu, que imaginava que o mais bonito de tudo é a gente estar de orelhas atentas para ver o que é que o aluno nos segreda dos mistérios de que já nos esquecemos! – eu vi que, de fato, o processo da educação professor-aluno é uma troca na qual enquanto ouvimos os segredos que vem do espírito, contamos para eles como é que as coisas se arranjaram por aqui enquanto ele estava fora.

Daí eu estava me assistindo a mim assistindo o vídeo desta mulher. Eu estava de boca aberta e pensei: em essência esta mulher fez a mesma coisa que eu e que fazem muitas pessoas neste mundo! Em essência o que é raro ou indispensável, e que ocorre na vida de todo mundo é um convite para agir de maneira íntegra e comprometida com a verdade.

E é muito necessário lembrar: a verdade tem roupas diferentes. É preciso experimentar verdades e coerências dentro de universos tão distintos quanto o universo desta mulher – uma senhora católica, uma extraordinária educadora e os muitos outros universos que se encontram neste mundo. As verdades são caminhos para uma verdade original e interna de cada pessoa. Uma realidade que tampe todos os buracos sem deixar nenhum em aberto.

E o caminho que esta professora fez é tão bonito, pensado e repensado, experimentado tão intensamente, também, que não tem defeito! Se alguém precisa se achar na vida, vai ter que fazer um caminho seu tão intensamente quanto ela fez o dela. Tem que encontrar respostas tão legítimas e firmes quanto as dela, e tem que chegar a um ponto de dar um testemunho descansado e comprometido, absolutamente sem medo, do mesmo jeito que ela dá.

A questão é que ela se tornou uma pessoa extraordinária, um luminar, não porque ela era mulher, não porque ela era católica, ou porque era equatoriana, nem tampouco porque se dedicou a ser professora. Quem dera existisse assim o caminho das pedras bem marcado para a gente pisar, não é? Mas não. Ela é um luminar sereno e íntegro porque ela arregaçou as mangas até o cotovelo, porque ela se pôs de pé corajosamente e aceitou um convite de rigidez e disciplina para si, sob pena de perdas, de sofrimentos, de erros, mas com toda a vontade.

Para nós, os plebeus, aqueles que ainda não encontraram a porta, aqueles que estão indecisos por qual caminho seguir, fica a indicação: seja você e arme-se de coragem, intensidade e firmeza.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.