A Obra que vai Nascer

28 maio 2014, Comentários 0

William_Turner_-_Flint_CastleHá umas tarefas na vida que assustam por conta do tamanho. A gente vê o começo, as direções que toma. logo mais perdem-se já um pouco do domínio das bordas, e o projeto se estende de uma tal maneira em todas as direções no horizonte, que você não vê mesmo o fim dele.

E não era para assustar, mas a gente pensa que é responsável por tudo: por cada tijolo da obra, por cada palavra que na história do empreendimento vai ser dita lá dentro. Por cada gesto.

Você imagina que você precisa levar a vida preparando cada um que vai pisar a obra para pisar direito, não arranhar o piso, não enrolar o tapete. E isso levará uma vida – você sabe. E você, somente você – assim você acredita – tem que empenhar sua vida toda para fazer este preparo e pensa que isso deve acontecer antes da obra.

Se você pensar direito: a vida toda é o tempo que a gente tem para um treino… para uma outra vida. Não vai ter segundo tempo. Não vai ter este encontro, desta maneira com esta consciência e para este fim. Tempo de treino e tempo de empreendimento é o igual.

Agora olhe para você. Você que quer treinar os outros para não estragar a obra. Você vive enrolando os tapetes e arranhando o piso. Você passou a vida tendo que reformar paredes que construiu tortas e fracas. É assim.

Se hoje você sabe que tudo isso vai acontecer dentro da sua obra é porque você já viu – no passado e no futuro. Aquilo que você adivinha daqui a meia vida – tudo o que vai resultar do impulso que você tem agora já existe em semente. No fim, não é a obra pela obra, para ficar lustrosa e bonita. A obra vai existir para que nela as pessoas tropecem e enrolem os tapetes, e risquem o chão e se descubram com o tempo.

Não é você quem vai ‘treiná-las’, são elas mesmas que vão viver somente, e de repente acordar para seu caminho. Vai ser assim que depois de muito tapete enrolado, cada um começa a prestar atenção. É exatamente isso: a consciência se amplia e aí é que a obra vale a pena.

Vamos ser claros: a obra é para tropeçar. E você, meu amigo, está convidado como os outros a tropeçar, também – naquilo que está na sombra da sua vista. Naquilo que você não percebe porque você não deu a chance da realidade da obra existir ainda para viver em seu universo. Então fica a realidade engolida, encoberta – a realidade não manifestada externamente até que a obra esteja explícita.

Explícita, não completa.

Explícita no sentido de ter se feito visível para os outros – para você também. Mas as obras humanas, como os seres que as criam, vão viver sua longa vida. Vão construir sua biografia traçada no tempo por este poderoso eu social que está se empenhando nela.

Você é um colaborador. Se alegre com isso. Você é parte desta construção. Você vai crescer na realização da obra. E não vai vê-la completa.

O tamanho da obra em que você se meteu é imensamente maior que você – e vai ganhar espaço e tempo muito mais largos do que vão ser os da sua vida humana. Tomara, aliás! Tomara que esta obra que vai ser o campo de realização da sua vida vá longe no tempo e abrace muitas outras pessoas. Tomara que elas todas aproveitem as marcas dos tropeços dos outros. Tomara que consigam tropeçar livremente até que se deem conta sozinhas, de seus tropeços.

Mas você tem um tanto de razão com sua apreensão. Para participar da realização dessa tarefa a tua coragem precisa ser do tamanho da obra completa do teu sonho. Me dá um arrepio pensar nesta dimensão, mas mantenho o fogo aceso ao lembrar daquela frase inspirada de Goethe:

“No momento em que nos comprometemos, a providência divina também se põe em movimento. Todo um fluir de acontecimentos surge ao nosso favor. Como resultado da atitude, seguem todas as formas imprevistas de coincidências, encontros e ajuda, que nenhum ser humano jamais poderia ter sonhado encontrar. Qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar, comece agora. A coragem contém em si mesma o poder, o gênio e a magia.”

Goethe não te conhecia, mas escreveu esta frase para você, também.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.