O Vaso

12 dezembro 2013, Comentários 0

vasos-de-barro2Li hoje um texto sobre a fábrica de dinheiro que se tornou a farmácia. Existem companhias dedicadas a inventar doenças baseando-se no simples fato de que ninguém sabe de nada. Assim: todo mundo sabe que a gente envelhece, mas sabe olhando o conjunto: cabelos brancos, rugas, perda de controle das funções do corpo, perda de memória, etc – tudo isso vai acontecendo aos poucos, para todos, em toda a parte e durante toda a existência humana. Ou alguém de nós tem um parente jovem com 700  ou com 4 mil anos?

No entanto as pessoas dão remédios para que não exista flacidez, rugas, para que não se perca a densidade dos ossos. Mas a natureza é terrível, a idade abate, e no fim… Bom, a gente fica indignado com a morte – está certo, não é de hoje. Mas a gente simplesmente não tolera a morte. A gente quer dobrar a média da idade. Quer ser jovem a vida toda! Mas para quê?

Durante a juventude temos uma força descomunal: temos vontade de virar o mundo do avesso, de curá-lo ou de dominá-lo. Temos a certeza de que todos estavam usando a estratégia errada até agora e enfim, chegou a nossa vez! E a vida é uma batalha, mesmo. A gente vai passando os anos aprendendo muita coisa, e tudo se resume, mais ou menos, em se tornar uma pessoa melhor.

Hoje a pessoa ideal tem, vamos dizer, 30 anos. Uma pessoa bonita, dinâmica, livre… Há namorados, inúmeras viagens, várias empresas a fazer, empregos, conquistas sobre conquistas, elogios etc. A vida promete!

Mas fisicamente a pessoa está em um certo ponto. Certamente se observa sua estatura – muito diferente de quinze anos antes. A voz, a ossatura, o olhar. O tamanho das mãos, onde se as coloca. Sabe-se o que quer dizer e para quem. Sabe-se lidar com vários fenômenos do mundo e fenômenos humanos. Aos quinze anos se estava buscando um lugar entre os pares, era preciso saber-se aceito. Antes ainda, aos cinco, se tinha talvez a metade da estatura, dentes de leite, mãos pequenas, pele macia. Nosso corpo aos cinco anos tem muita água, somos arredondados e flexíveis, muito mais abertos e muito dependentes.

Ainda antes éramos molinhos e mal sabíamos andar ou falar. Não comíamos sozinhos ou íamos ao banheiro sem auxílio. A vida é uma sucessão de estágios. E são estágios de consciência! Talvez não caiba especular quanto de água ou quão redondos precisamos ser, qual a proporção dos nossos ossos em suas relações e tudo o mais que permite que em tal ou qual idade se tenha certos tipos de consciência. Consciência da Madona na presença da nossa mãe. Consciência dos Seres da Natureza e absoluta inconsciência de separação. Simplesmente não nos damos conta de que somos outra pessoa, separada dos outros.

Depois crescemos e nosso corpo se torna muito duro e muito seco. O que isto nos permite perceber? O que significa carregar um manto branco sobre a cabeça na velhice. Se não mais nada, o que é mudar de preta para branca a luz que cobre nossa cabeça? O que é que será que significa ficar com ossos porosos e leves no final da vida? Será que devemos tomar hormônios e nos entupir de cálcio contra a famigerada ‘osteoporose’?

Tenho para mim que durante a vida vamos mudando o vaso onde cabe nossa consciência. Cada vaso muda no decorrer da vida – como também cada pessoa diferente tem um vaso mutante onde cabe a consciência única que ela carrega.

A consciência é meio exclusiva, embora seja comum a todos os seres e ao mesmo tempo uma só. Pense no que é a consciência da planta ou do bicho. Pense o que é a consciência da pedra. Cada ser é um vaso – cada ser, desconfio que até o monitor do computador, as canetas, os livros, a cadeira. Tudo abriga consciência. A mínima pulga, o último grão de areia.

Agora os seres humanos vão vivendo e de dia para dia mudam o vaso. A gente vem com um tipo, exercita coerentemente durante a vida toda abrigar a consciência neste tipo – de ossos pesados, ou longos, de cabeça grande ou pequena, de quadris largos, etc. O corpo! O vaso! Mas durante a vida toda a gente tem diferentes possibilidades, porque a idade . Hoje em dia você pode evitar viver estas experiências. Hoje você vai a uma farmácia e é mumificado.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.