O Trigo e o Conhecer

20 junho 2014, Comentários 0

vangogh_reaper_1889Estudando recentemente um texto do Steiner sobre como as coisas podem ser conhecidas, ele trouxe uma metáfora falando do trigo.

Do trigo: este cereal extraordinário a partir do qual a gente faz de tudo na cozinha – e serve para outras artes, também. Mas o pão, por quase todo o mundo é de trigo – com ou sem fermento, assado ou cozido, chato ou emboladinho, quase todos vêm do trigo.

Não sei se todo mundo já viu um trigal – o campo onde é plantado o trigo. Verde ele já é bonito. Com a passagem do vento em largas plantações nos dá uma sensação de maciez por sua maleabilidade. O vento entorta cada haste, mas não as vemos assim: vemos ondas se sucedendo e se encontrando como se tudo aquilo fosse um só organismo líquido.

Talvez não líquido, mas é mesmo um só organismo. E maduro, então! Quando o trigo amadurece, não só a semente, mas toda a haste vai perdendo o verde e derivando para um amarelo dourado. Cada haste vai-se ressecando e morrendo… Morrendo como planta para se tornar obra de arte no campo.

O vento, quando o trigal está maduro, faz com que a gente possa ver o sol espalhado na terra. Ouro em ondas dançando. É lindo!

E aprendemos há muito tempo a cultivar o trigo. Há, claro clássico conto de na pre-história nossos antepassados cansarem de caçar e viver se mudando e irem se assentando. Aí precisaram selecionar espécies mais rentosas para o cultivo e o trigo estava entre elas.

Gosto mais de pensar que o trigo – assim como os outros cereais, foi um presente do céu. Que nossos antepassados por uma sorte estranha acabaram recebendo a visita de um dignitário que lhes presenteou com esta dádiva. O melhor nesta história é que você não precisa ficar matutando em como é que os sujeitos foram achar o trigo, passar anos combinando espécies com sementes mais gordinhas, deixar amadurecer para finalmente colhê-los.

Ah, sim, depois deixá-los secar – lembre-se que ninguém conhecia o trigo antes, mas deixaram secar, depois descascaram a parte mais pesada, aí moeram o trigo, fizeram farinha e da farinha, vamos dizer: espaguete…

Está bem, talvez seja um salto exagerado, mas há algo de genial em se fazer pão, lasanha, macarrão, pizza, bolos, enfim, tudo o que se faz simplesmente porque o trigo tem esta reação fantástica no cozimento que é gerar uma massa densa que termina por ficar leve e aerada.

É o glúten, eu acho, esta mal afamada proteína que os médicos afirmam ser um alergênico de primeira linha. Não se assuste se você come trigo. A alergia não está no glúten. Não é ele o malvado, nós é que nos tornamos tão irritadiços e que inventamos uma incapacidade de lidar com esta maravilha da natureza. Não se culpe pela alergia, também. Todos nós sofremos com esta alergia.

Tudo isso do trigo é um presente na nossa existência terrena. Precisamos comer e trigo tem nos servido pela vida afora.

No entanto o trigo não planejava isso. Não planejava ser bonito ao vento, não planejava ser nutritivo nem tampouco alergênico. Ele não planejava nada. O trigo, como todas as outras plantas, obedece a este inteligência confinada no silêncio de ser trigo. Parado ali semente, o trigo não quer nada. Vai cair no chão de novo e brotar haste de trigo para multiplicar-se.

Trigo obedece a uma biografia tão longa como é a história da primeira semente que caiu no chão. E se estende pelo futuro, indeterminadamente. Não existe vontade outra que não a vontade inerente no ser trigo.

Mas o Gilberto Gil confessou nossa intervenção: “morre, nasce, trigo, vive, morre, pão …” A gente interrompe um ciclo infinito de mortes e nascimentos como trigo e trigo e trigo sempre e o colhe, seca, amassa e faz espaguete! O trigo nem esperava por isso. Mas não se assusta, tampouco. Tem alguma coisa de santo no sacrifício do trigo para alimentar os outros.

Rudolf Steiner fala deste momento de intervenção do homem como justamente o momento em que olhamos as coisas e lhes encapsulamos em conceitos dos quais nos podemos servir: ‘trigo’, ‘semente’, ‘cadeira’, ‘texto’, ‘computador’ – as coisas todas que  nos cercam – seres que por si mesmos não vivem para nos cercar e nos garantir a compreensão do mundo, mas que se sacrificam para que a gente possa se acercar das coisas materiais com alguma segurança.

No entanto são seres independentes de nós. São seres que existem além da nossa capacidade de conhecê-los. Pense que você usa um telefone, um computador e não sabe quase nada deles. Tal qual não sabe do que é de fato uma tulipa, uma lilás. ‘Computador’, ‘flor’, você diz. Nisso a flor morreu. Para que você consiga digeri-la no seu cérebro seco.

Mas a flor continua sendo além da sua intervenção. É preciso jejuar para conhecer o trigo. É preciso deixar de colhê-lo e permitir que ele brote dentro de nós, e floresça ele mesmo, não pão, mas trigo em toda a sua plenitude.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.