O Tempo do Segredo

30 janeiro 2014, Comentários 0

images (24)Estamos no grato tempo do segredo, do mistério. Há quem pense que basta acessar a internet e pronto: sabe-se quais os processos do estômago no momento em que se come – sabe-se os nomes de cada parte interna do corpo por onde o bocado vai passar, com os nomes dos líquidos que o vão transformando e pronto! Sei tudo. Ou então pode-se  acessar uma página de uma enciclopédia ou perguntar para um especialista porque é que os meus músculos ficam assim ou assados depois de uma hora de exercício físico ou porque na boca a pele é diferente da do resto do rosto e porque o cabelo de uns é liso e de outros é crespo. Posso perguntar para qualquer um a razão de os dentes das pessoas terem uma variação tão grande entre tantos brancos. Posso ir assistir a uma aula sobre as influências da lua nas marés e isto tudo vai ser colocado de uma maneira que eu irei para casa e me deitarei na minha cama e pensarei: eu sei tudo a respeito de tudo. Não há mais nada que alguém me possa esconder.

No entanto eu vejo claramente que as explicações são como um maravilhoso sanduíche embalado em plástico de um tal jeito que você olha as cores e as texturas, mas não consegue tocar, cheirar, sentir o gosto e, principalmente, o sanduíche não te alimenta! Você não vai conseguir colocar nada boca adentro. Enfim, o sanduíche não é seu!  Tudo o que um especialista possa fazer, um bom professor, um livro só tem valor se a pessoa sozinha, se o indivíduo tomar tempo e for atrás daquela realidade longe daquela palestra, longe da aula, dentro de si mesmo a partir de seus próprios recursos.

Não tem maior enganação do que segurar um diploma e pensar que ele assegura que você saiba alguma coisa. A sua experiência pessoal pode fazer você entrar em contato com a realidade do sanduíche, mas a aula, dificilmente. E por que isso? Porque somos seres inteiros! Participa de nosso ser vários âmbitos que quase que totalmente nos são desconhecidos. Somos capazes de reconhecer nosso estômago? Conhecemos os nossos músculos e a dança que eles fazem e temos lucidez sobre o que significa o movimento na nossa vida? Não! É tudo informação externa, ainda que a gente pense que o conhecimento que chegou até nós é ‘conhecimento superior’, é ‘conhecimento secreto’, não existe nada neste mundo que nos abra para o saber – a não ser a gente mesmo, por esforço e disciplina, por muito querer matutar sobre os assuntos de maneira reta e clara.

Um médico tem certeza de que um ferimento que ele abre no corpo cicatriza. Todos temos, aliás. Mas o que é a cicatrização, não se sabe! Nem se desconfia das forças que estão envolvidas no processo de reconstituição do corpo! Mas nunca nenhum de nós toma tempo para saber de fato. E muitos médicos poderiam, muitos! Quantos se dedicam a isso? Saber o sanduiche por dentro e se tornar senhor dos processos porque se comunga com eles.

Ah, não é fácil, mas os tempos atuais são os melhores para isto! As pessoas antigamente não tinham tanto material para estudo, tantas fontes de curiosidade. Também não tinham, como temos hoje, um pensar tão agudo e exigente, tão capaz. A única coisa que nos perturba é a quantidade. É tanta coisa interessante! Quero saber como é que um colibri tem coração e pulmões e intestinos do mesmo jeito que um elefante. Eu quero saber tudo! E neste entusiasmo todo, estou indo para o fim da minha vida sem ter conseguido parar em nada.

E o curioso, o mais interessante é que todo mundo tem ferramentas para se dedicar a isto. Mas normalmente é o pensamento que está brincando com a gente ao invés de nós colocarmos ele para trabalhar! É preciso parar diante das coisas. É preciso calar diante das coisas para que elas falem. Por mais tentador que seja ir até o especialista, eu desconfio que o gostinho do sanduíche é só para quem o mordeu.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.