O Santo e Eu

25 maio 2013, Comentários 0

Rembrandt_1655_Cavaleiro_PolonesFalaram desta lua gigante que ia aparecer no dia 23. Eu adoro astronomia, fiquei com aquilo na minha mente desejando por tudo poder ver a lua nascendo. Mas Curitiba é implacável! Tempo nublado e só lá pelas 8h, quando já tinha perdido a esperança sou chamada lá fora para ver a gigantesca lua, que mesmo àquela hora parecia grande demais no céu, atrás das nuvens que ora borravam seu brilho, ora afastavam-se dela para exibir sua beleza branca.

Olhei com meus olhos estéticos para a lua. Extraordinária, inacreditavelmente bonita no buraco das nuvens. Olhei com meus olhos cientistas me perguntando quantos quilômetros de distância ela teria se aproximado. Fiquei impressionada de fato. Estava muito frio lá fora e eu corri me recolher. Foi tão rápido que eu me esqueci de levar em conta que eu já estou sentindo esta lua se aproximando há dias. Não levei em conta que eu vivo a Lua em mim – como vivem todos os outros seres, aliás, e que ninguém precisaria ter me dito nada sobre ela estar mais próxima.

Mais do que isto: estou ciente da Lua nos meus ritmos, nas minhas águas. Estivesse eu menos interessada em vê-la eu teria encontrado a Lua dentro de mim esta semana, no meu humor, na minha sensibilidade extrema, no meu desconforto esta semana. Tanto assim que vi notícias e me pareceu que havia uma quantidade desmedida de maldade, crueldade e tristeza exposta. Não era possível! Era o que eu via: Convite para participar de campanha anti isto ou anti aquilo. Contra a imoralidade, a corrupção. Denúncias de violências e de maus tratos. Prepotências, etc.

Ver tudo isto no dia a dia para mim não é tão grave. Sou sempre muito otimista e acredito piamente que as coisas caminham para bem. Acredito que estou em meio a experiências merecidas e que todas são benéficas porque nos ensinam a segurar as rédeas dos nossos impulsos, a auto-educar-nos, etc.

Bom, sempre me encostei na crença pura de carma e reencarnação. Assim tudo é simples, não é? Bateu numa, levou na outra. E está certo. Está? Só que isto não anda acomodado muito bem dentro de mim. Eu me incomodo. Na verdade eu sou preservada de dor. Tudo na minha vida parece ter mais suavidade e menos agressividade do que na vida dos outros. Parece que eu estou aqui só assistindo, só de testemunha. Não há com o que me preocupar.

Eu estou como muitas pessoas que reclamam porque a comida está muito cozida, a casa muito ventilada, o mato muito alto no fundo de casa. Somos um mar de gente mole e reclamona que tem carro, geladeira, computador e fica esbravejando contra a corrupção, a má distribuição de renda, os desmandos dos políticos sem percebermos que somos nós os privilegiados por estas pessoas. Este sistema nos privilegia, nos sustenta dentro das melhores escolas, nos traz comida barata de mãos que trabalham ganhando pouco e vivendo mal, água e energia elétrica de milhares de quilômetros sem sentir as inundações sobre a história dos outros, sobre os ninhos dos lagartos e os territórios das onças.

Nós senvergonhamente somos contra o desmatamento e usamos madeira que nos custa pouco, sem suspeitar do quanto custa de fato para o mundo. Somos os que compramos computadores e roupas por uma bagatela sem pensar na escravidão, na violência. Somos os que presenteamos nossas noivas com belíssimas joias cravejadas de pedras sem atinar para a prostituição, para a morte, para o sangue que corre além mar.

Isto é demais para mim. E eu dou aula para uma meia dúzia achando que semeio grande coisa para o futuro. Não importa se existe merecimento da dor, não importa se há motivos cármicos, se em outras encarnações o fulano foi ruim e é por isto que lhe tiram a terra, a família, a esperança. Eu quero o perdão para esta dor agora. Eu quero que se extinga hoje a cobrança da culpa, do pecado, da demanda. Basta!

Conversando sobre isso com um desconhecido – e talvez por isso achei possível abrir esta minha aflição – ele me disse: Você conhece ‘Saint Germain?’ Eu preciso agradecer a ele por isso. Porque me deu um contraponto. Porque me despertou para aquilo que eu não quero mais fazer. Eu conheço Saint Germain e a sua história e as suas benesses. Eu sei que poderia receber a graça de seus conselhos, me espelhar em seus passos. Eu já fiz isso por muitas vezes e sei que é um conforto. A responsabilidade não é minha. Diante dele eu sou criança e como criança eu sou cuidada e sou protegida.

Mas eu não quero benesses. Eu não quero me apoiar em quem pode mais. Eu não quero pedir para alguém superior que me poupe de alguma coisa. Eu fazer por mim, desde a minha altura. Hoje o pecado é pedir ao Santo. Estamos no mesmo pé: ele e eu. Podemos o mesmo ele e eu. Mas se eu ficar de joelhos querendo um benefício através dele, daí eu sou menor e posso menos.

Eu preciso ter mais coragem. Eu preciso ir até onde posso ir. Preciso olhar para mim sem me atrapalhar e pedir a mim somente que eu esteja presente para vencer o susto e o medo, e para ser lúcida o suficiente para perdoar antes de recomeçar o ciclo das cobranças. Que assim seja.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.