O que vai nos matar

5 março 2013, Comentários 1

botero 2 sisters

Nossa inteligência procura remédios objetivos para os males que nos acometem. Vamos a médicos, que nos encaminham a especialistas, que nos encaminham a fazer uma quantidade de exames para nos dizer no fim que temos uma infecção, uma inflamação, um vírus e nos indicar o uso de antibióticos, anti-inflamatórios e analgésicos. Autorizamos os médicos a nos tratar e medicar. Um médico que muitas vezes nos conhece há menos de cinco minutos. Tomamos o mesmo antibiótico para a mesma infecção e vamos repetir as mesmas doenças pela vida toda, porque afinal, e isso dizem também os médicos, temos uma ‘tendência genética’ a tal ou qual doença. E nos conformamos com a nossa morte certa do coração, derrame, diabetes, câncer etc.

Nossa vida está fadada a uma morte aos 70 anos de não sei que doença que nos vai roer pela vida toda e nós vamos lutar pouco contra ela porque, no fim das contas, é de família.

Também é de família nossos hábitos de pensar, de sentir e de fazer as coisas. Ninguém cogita que se mudarmos os hábitos que cultivamos dentro de nós mesmos, mudam também os sintomas externos. As doenças se extinguirão – ou pelo menos variarão para outras originais na sua história.

Passamos dos quarenta anos há tempo e no fundo voltamos o rosto a cada momento que desconfiamos do que detona aquela dor nos rins – seria talvez um certo medo de enfrentamento de alguma coisa que nos ronda. Talvez a alergia não passe de uma irritação com o mundo porque ele é cheio de pequenos detalhes que você não queria ter de lidar.

Quem sou eu para dizer que você não deve ir ao médico. Ao contrário, eu acho que deve ir, que deve saber a fundo o que é que está se manifestando no seu corpo para descobrir o que é de fato que vai te curar e não somente o que vai aplacar a dor deste dia. Mas não levamos adiante os sinais da doença. O analgésico acabando com a dor, nós a esquecemos, o antibiótico resolvendo esta infecção, damos as costas. Não queremos mesmo ver a origem. As bactérias proliferam-se aos montes, porque uns adoecem com elas e outros não?

Ninguém pretende ter o câncer dos pais, mas somos levados aos mesmos passos, por imitação ou aprendizado. Depois de uma idade poderíamos revolucionariamente dizer: “eu não vou sofrer disso porque eu não quero repetir estes padrões.” Eu quero fazer um caminho novo no qual não tenha este enrijecimento doentio que me endurece em artrose. Eu quero amar o mundo e me amar no mundo. Eu quero que todas as coisas me sirvam de lição e que eu consiga aprender com elas e me transformar agora. Não daqui a um mês, ou quando eu ficar velho.

Muitas vezes eu vejo as pessoas marcadas pela velhice precoce. Mancam, têm as pernas arcadas, as costas recurvadas, a expressão de dor; ou têm a pele muito avermelhada, ou olheiras profundas, pernas cheias de varizes, tornozelos inchados. Se não tudo isso, contam de cirurgias em que colocaram estentes nas artérias do coração, tem alergias, tratam de doenças nos olhos, de asma, de pressão alta. Muitos de nós são obesos, têm músculos atrofiados. Sentimos dores.

Nós nos habituamos às doenças. Ninguém se surpreende com as doenças não só nos velhos, mas qualquer pessoa adulta ou criança. E continuamos repetindo os mesmos hábitos de pensar, de sentir e de agir em relação a maioria das coisas. Somos críticos, céticos, orgulhosos, gananciosos, gulosos, pensamos mal de quem não é suspeito e pior de quem é suspeito.

Somos incapazes do perdão, assumimos culpas e despejamos culpa, cobramos de todo mundo e vamos ficando mais e mais alheios ao mundo. Lamentamos a pobreza, a ignorância, a injustiça e não fazemos nada a respeito. Nada.

O mundo vai-se degenerando diante dos nossos olhos e nós, por dentro vamos nos degenerando também. Por falta de atenção, por falta de cuidado com o que está fora e com o que está dentro.

Proponho que comecemos a olhar para dentro com atenção e traquear o que desencadeia as nossas doenças. Se elas são agudas ou crônicas, se elas são quentes de estourar, ou frias, congelantes. Proponho que descubramos o porquê de termos que beber este remédio para colesterol. Se não existe mais nada que se possa fazer além de ir ao médico.

Talvez a observação seja reveladora. Talvez, pelo menos consigamos poupar as próximas gerações de repetir os mesmos caminhos. Isto só por compaixão, por amor verdadeiro, por descobrir que não é a doença quem manda, nem é ela que toma as decisões na sua biografia. Quem rege sua vida é você.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Poliana

    Muito bem escrito e pensado. Adorei!