O que sei de mim

7 março 2013, Comentários 1

espelhoSabe quando repentinamente você fica consciente de uma característica sua que não te agrada? Quando você é adolescente, as vezes, outras vezes num comentário no seu trabalho em que todas as pessoas concordam, e de repente você veste a carapuça “Nossa, eu sou assim mesmo!” E isto não te deixa propriamente contente. Você fica meio resistente. Você não queria ser exatamente assim.

Daí você passa a se cuidar com o que você está falando, com o que você está fazendo, com o modo com que se porta, com que se relaciona com as coisas. Você não quer, mas fica tão convencido daquela característica com a qual você se identificou que passa a acoplá-la no seu conceito de si mesmo. “Eu sou sem-educação, mesmo!”, “Eu sou fresca, mesmo!”, “Eu sou metódica, mesmo!” “Eu sou chata, mesmo.” E ponto final. Você não discute mais a questão, embora ela de certa forma te incomode.

Fiquei pensando na razão pela qual resistimos tanto a estas etiquetas que nos colocam – não etiquetas malucas sociais com as quais  nos batemos também, porém em grupos – outras, as etiquetas nas quais você mesmo se reconhece. Penso que isto tem a ver com um temor que temos relativo ao estágio de cristalização das nossas potencialidades, das nossas possibilidades de ser.

Uma vez que você seja ‘esperto’, ou ‘inconsequente’, ou ‘nada diplomático’, ‘indisciplinado’, etc você se coloca dentro de um limite que a expressão ‘nada diplomático’ ou ‘esperto’ determina. Sempre pensei que a língua fazia como que uma maldição, que a gente não devia nunca pronunciar certas frases ou certas palavras porque elas fatalmente criariam uma cerca intransponível. O conceito engessa, endurece, cristaliza a realidade de tal forma que uma vez emitido, não há mais o que fazer.

Ora, isso é uma superstição – eu sempre pensei, mas instintivamente eu falava como que me benzendo, para evitar que uma ‘praga pegasse’ em mim. É uma coisa de bruxas, de feitiço. Afinal nada poderia acontecer porque alguém falou. Não era para ser assim: a gente descreve o mundo, a gente nomeia o que já existe, fenômenos, fatos. A gente não inventa nada nem tem o poder de encarcerar ninguém dentro de nenhuma jaula. Não é assim?

Pois eu percebo que a gente cresce dentro das jaulas, sim. Crescemos dentro das cercas, dentro das etiquetas. Vamos sendo moldados pelos conceitos que emitimos e que reconhecemos, e vamos fazendo aos poucos a pessoa que nós pensamos que somos, vamos nos plasmando no mundo, nos criando como personalidades, como pessoas.

Várias vezes eu percebo em mim algumas resistências a me mover a fazer alguma coisa diferente, a tentar estar em lugares e conviver com pessoas que não fazem o meu perfil, de estar aberta para o mundo e quando eu tento, eu vejo que, embora já formada a minha personalidade, existem áreas de mim que eu não conheço, porque eu nunca visitei. Acabo descobrindo que ir a lugares estranhos aos meus hábitos e conversando com pessoas diferentes eu conheço uma pessoa diferente em mim mesma.

Certa ocasião até ouvi o que eu na hora pensei ser um contrassenso: ‘nossa, você é tão livre e animada!’ Eu livre e animada? Nossa, isto é justamente o contrário do que penso a meu respeito. Eu sou uma pessoa rigorosa, exigente, ranzinza até. Como assim, livre e animada?

Aí é que eu descobri que tem um lado positivo em a gente se apoiar em conceitos a respeito de si, mas há o negativo, também. A gente se engana, se limita. Concluo que se deve estar aberto sempre. É preciso se examinar a cada pouco e tentar descobrir novas possibilidades de existir, novos modos de seguir adiante, novos caminhos. E o que é muito importante, é preciso conseguir jogar fora o que os anos de repetição de ‘verdades absolutas’ a seu respeito tinham decantado.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    A ovelha negra da família sempre fui eu. Vesti a pele, mas como se fosse de lobo. Sai atacando tudo e todos. Se arrependimento matasse…