O que se diz

7 março 2014, Comentários 0

©Photo. R.M.N. / R.-G. OjŽdaAndei reparando em como a gente tende a dar opinião sobre tudo. Eu confesso que falo por mim. A todo mundo eu tenho alguma coisa a dizer. Venho há anos tentando ficar quieta porque eu reconheço que sempre é melhor que a pessoa pondere lá consigo as suas coisas.

Então quando as pessoas vêm para conversar comigo e apreciam o que eu digo, mesmo assim eu vejo que seria melhor não ter falado. Nas outras vezes em que solto minha impressão e os outros não se agradam, aí sim eu vejo a falta de propósito que é emitir meu julgamento!

No entanto, muitas vezes a gente vai atrás da opinião dos outros que já nem estão mais aí. Assim, quando a gente pergunta a Kant, ou a Aristóteles o que eles acham sobre uma decisão que você está tomando. Ou quando lê um poeta, quando lê um livro inteiro e percebe, perdida entre as milhares de frases do livro, uma resposta a uma pergunta que você tem guardada.

Bom, nesta eu cheguei a uma conclusão: melhor fazer registros positivos. Acredite. É o melhor.

Ainda não concorda comigo, não é? Está pensando na maravilha de ter a opinião de um filósofo famoso ou de um poeta, de um escritor de renome a respeito da sua decisão. Muito bem, tem vezes que é ótimo, mas imagine que você abre displicentemente um desses livros de astrologia de aeroporto. Estes que você compra praticamente a força porque vai passar certeiras 5 horas esperando pelo próximo voo.

Você compra porque viu que o autor escreve o livro para leigos. Nada além de textos leves mostrando tendências baseadas nos dias de nascimento. Você nem gosta de astrologia, mas as 5 horas de espera garantem o interesse. Você compra o livro e duas palavras cruzadas e está tudo bem.

Aí você se senta num canto do aeroporto e abre o livro. Você não vai ler tudo. Tenha dó! Obviamente você vai direto no dia em que nasceu e vai ler tudo o que tiver escrito pelo autor sobre você – a pessoa que mais te interessa.

E você se sente descoberto: “sou eu mesmo: rosto harmônico, elegante, calmo, detalhista,” etc, etc. Seus gostos, suas tendências, suas reações, seus sentimentos, suas aspirações… Você se encanta com o livro porque parece mesmo que a tal da astrologia pode mesmo ter algum crédito…

Mas termina o capítulo e se abre um outro: das compatibilidades, do futuro! Se até aqui você se reconheceu por completo você sente até um estremecimento: será que vou herdar uma grana? E, bom, você tem uma namorada, um emprego, a família dos seus pais, você tem uma vida social, você tem um certo dinheiro – e não existe nem um tópico que não esteja contemplado no livro. Que delícia – já se passou uma hora desde que você pegou o livro – a gente nem sente que o tempo passa!

E aí o livro diz que pessoas como você, nascidas com o Sol no signo tal não tem a menor chance com uma pessoa do signo da sua namorada! E tem mais: você vai ser pobre o resto da vida e trabalhar na mesma repartição pública até a morte.

Compreende porque não era assim tão bom aceitar a palavra alheia? E você, também diz ou publica a palavra? Registros positivos, eu disse. Estes são os melhores. Ou calar-se. Mas se não for possível calar-se, faça observações positivas. Mostre caminhos, portas abertas, virtudes em desenvolvimento. Paredão com arame farpado não é estímulo para ninguém.

Mesmo porque a gente pode ver tendências, pode ver registros do passado, mas a gente não pode ver o milagre da liberdade humana no presente. O milagre da vontade. Embora já haja exemplos de sobra.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.