O que pode te acontecer

31 julho 2014, Comentários 1

beijoSabe aquela situação super comum: filha adolescente começando a conhecer meninos do mundo. Nada de paixão, nada de amor platônico – estes já aconteceram antes, talvez. Mas agora é puro interesse. Pura curiosidade e atração, claro!

Mas a família fica em polvorosa. “O que vai acontecer a esta menina? Depois de ter sido tão cuidada a vida inteira agora ela está aí sem ninguém que lhe dê limites!”

Qual é de fato o problema? Do que é que a gente tem medo? Creio que muito do que a gente teme é a violência, mas também que a menina fique grávida, que pegue uma doença, que se desiluda e sofra.

Mas quem não passou por isso? São riscos. E ela corre o risco também de encontrar pessoas legais, namorar por algum tempo e guardar sabores do amor, fazer laços que vão levar a vida dela para onde deve ir. Assim como, aliás, uma gravidez ou uma doença, ou até mesmo o trauma de uma violência.

Por favor não pense que eu sou uma mulher desnaturada. ‘Fala isso porque não é sua filha!’ Não se trata disso. São nossas filhas todas as filhas do mundo. Todas as meninas e, também, os meninos, que passam pela mesma experiência embora muitas vezes sem sentir tanto o medo dos pais. Meninos não ficam grávidos, não é? Difícil sofrerem violência sexual – não mais que as mulheres. Doença? Os homens são fortes, nem doença de corpo nem de alma duram muito. Não é isso o que pensamos? Bom, talvez os fatos não sejam exatamente assim.

No fim há por aí meninos e meninas experimentando viver. Determinando já agora os pares com que irão conhecer o mundo. Estamos todos assistindo o caminho natural do ser humano. Pesa mais para as meninas, talvez. Os meninos têm as expectativas que os pressionam para o primeiro beijo, para a primeira transa. Sobre as meninas pesa o medo.

Desculpem, eu não compactuo com nenhum destes movimentos radicais pela liberação da mulher – meu pleito é a liberação do ser humano. De todos os seres humanos: das meninas que precisam sair por aí conhecendo as pessoas em todos os níveis (interprete como quiser). E daqueles que não dormem de medo que elas estejam ‘se perdendo’ nesta vida.

É preciso permitir que as pessoas vivam. É preciso que a gente consiga ser otimista o suficiente para deixar viver e buscar seu caminho a partir dos horizontes que vão se delineando – sob cada ponto de vista individual.

Se olharmos para nossa própria vida, nós também engravidamos, pegamos doenças, sofremos alguma violência e temos cicatrizes de incuráveis dores de cotovelo. Faz parte da vida que escolhemos. Seríamos menos se não tivéssemos passado por isso.

Do que é que você tem medo? De um filho? De que isso traga a ruína para a vida da menina? Porque ela não vai poder fazer um mestrado em artes na Europa? Mas do que é mesmo que a gente está falando? Da vida que as pessoas precisam viver ou dos seus planos e sonhos para um futuro que nem é seu?

O que torna as pessoas mais dignas – ou menos? O que as torna mais firmes e batalhadoras – as facilidades até os 30 anos ou as responsabilidades advindas das suas ações?

Se olharmos para a nossa própria história, nós fizemos exatamente o que queriam que nós não fizéssemos. Fomos inconsequentes, fomos precipitados, fomos ousados. E achamos o nosso caminho.

Tomara que eu não seja uma pessoa assim, que eu não fique enchendo a vida dos adolescentes de medos e dúvidas. Tomara que eu consiga confiar na força dos exemplos que estes adolescentes tiveram durante a primeira parte da sua vida e que qualquer que seja o caminho da vida que eles tomarem, que eu confie que este é o que vai ser o melhor, porque no fim, este é que é o real.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Só se aprende a andar quando se está disposto a correr o risco de cair.

    Do contrário, não se anda, não se ama, não trabalha, não envelhece, não se vive.