O que fica da adolescência

27 fevereiro 2013, Comentários 2

renoir xi-pang

 

 

Olho para a ansiedade dos adolescentes – quem os tem em casa pode avaliar o que estou dizendo! – anseiam pelo fim da escola, querem encontrar o amor de suas vidas, querem poder dirigir, ir a qualquer lugar sem que lhes controlemos as companhias, os horários, querem poder beber ou entrar no cinema sem mostrar a identidade, querem a pele livre de espinhas, o peso ideal, os músculos, a altura.

Adolescentes são tão ansiosos que conseguem querer ardentemente ser diferentes vestindo-se exatamente igual, dizendo as mesmas coisas, repetindo os mesmos hábitos de todos os conhecidos de sua geração porque temem se sobressair.

Quanto a escola: a internet não substituiu o professor. Nem vai. Ninguém aguenta um adolescente o dia inteiro em casa – tem que mandar para a escola! Mas bem seriamente: a internet não substitui a escola porque eles vivem para ver o mundo, e tem uma amostra de mundo na escola. Os adolescentes estão na beira da montanha doidos para se lançar ao primeiro voo, mas sem coragem.

É difícil, porque o maior temor de um adolescente é o julgamento: o boné tem que ser aprovado, a calça, o tênis, o cabelo, a maquiagem. Agrupam-se entre os com tatuagens, os com piercings, com cabelos coloridos, sem cabelos. São ferozes roqueiros aqui, cheios de taxas e pulseiras radicais. Mas encantam-se com uma princesinha, toda delicada e cheia de cuidados de não sentar assim, não falar rudemente, não deixar o cabelo desalinhado.

Aí a ansiedade é maior ainda: será que ela me aprova como eu sou, será que tenho que deixar de ser quem eu sou. E no meio de tudo isso é preciso ser coerente. Porque coerência é a coisa mais nobre. E exigências machucam ou pesam, enganam. É um período difícil de querer ser alguém, e querer ser já. Porque a pergunta que não aparece bem dita é: quem é que eu sou?

A dor de uma reprovação é imensa, insuportável e pode gerar tanto a mais estrondosa das reações quanto um recolhimento absoluto – ou ambos. Mas ninguém se compadece de um adolescente, porque eles vivem passando do limite. Eles vivem fora do limite, e testando o tempo todo os limites que os pais lhes dão. E precisam desesperadamente dos limites.

Adolescentes cansam os pais, cansam-se de si próprios, cansam-se da luta e não querem mais. E no dia seguinte, quando você for consolá-lo depois de tê-lo visto chorar no dia anterior, ele vira as costas para você, afunda a cabeça no boné esperando que você jamais revele sua fraqueza, esperando que você a esqueça.

Os adolescentes vivem em batalhas seríssimas. Estão sempre entre a vida e a morte, querem jogar todas as fichas a toda hora e não querem nunca ter alguém que lhes cobre nada no dia seguinte. É incrível pensar que podem sair mostrando sua inteligência febril por aí, suas habilidades em coisas que não dominamos, mas não conseguem ser prudentes a ponto de não ferir ou não se expor a ferimentos!

Duro como possa parecer, rapazes e moças sofrem profundas dores. Realmente suas decisões lhes pesarão para a vida toda e não, eles não tem a nossa experiência de 40 ou 50 anos para olhar para trás e dar de ombros se um colega o ameaçou, se alguém caçoou do que ele disse. Não. Tomar a decisão quanto a ficar ou não ficar com uma pessoa, se aquela pessoa vai ser confiável, se vai entender o combate sagrado em que se está sangrando.

Há Deus, o amor, o sexo, os ideais. Há a morte e a perda. Há injustiça e violência e há a doçura e a beleza. Há amigas grávidas e arrebatamentos na igreja, há a paixão irrefreável, os hormônios, a escola. Há a dor e o arrependimento. Há os ídolos. Há milhares de perguntas todas gritadas ao mesmo tempo lá dentro.

Os adolescentes se debatem nas mesmas decisões que nós. Tudo está entre dizer ou não a verdade, ser nobre, cumprir com a palavra, manter a dignidade diante dos outros e de si mesmo. Não existe nada de brincadeira na irritação de um adolescente. Ele fala com a voz embargada porque seu coração está em frangalhos, rasgado e ele tem certeza que as cicatrizes serão para sempre.

E serão mesmo. Olhe bem para o seu próprio coração.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • bertrine

    Deriana arrasou!
    Bertrine.

    • Deriana Miranda

      Cada um carrega um adolescente dentro de si – até hoje! Até a morte, eu acho. Obrigada.