O Professor Waldorf

13 junho 2014, Comentários 0

rembrandt_450A medida que o tempo passa a gente vai descobrindo o lugar que deve ocupar na vida. Uns vão ser donos de lojas de sapato, outros vão ser chef de cozinha, outros vão ser professores. No entanto, ao entrarmos no universo a que pertencemos, percebemos que há donos de lojas de sapatos ‘made in china’, outros vendem somente sapato esportivo, outros femininos, que os chef, por sua vez vão descobrir que um estilo, e ele vai desde a cozinha doce ou salgada, cozinha étnica e cozinha molecular, e isso vai até a individualidade de cada chef.

Ser professor é a mesma coisa. Existem professores de universidade, professores particulares, professores de artes, professores de ensino fundamental, professores especialistas em Maria Montessori, em Piaget, em Freire. Há professores tradicionais, há professores revolucionários, há professores alternativos e há professores Waldorf.

Eu escolhi ser professora Waldorf. Mais exatamente, eu me dedico às crianças do ensino fundamental – “o segundo setênio.” Minha admiração permanente é pelos professores Waldorf do primeiro setênio: as jardineiras pelo mundo – e jardineiros, também. Estes vão muito além de lidar com a luta no campo do sentir e aprofundam este exercício para o campo dos hábitos, do gesto. Para uma jardineira a briga é no nível de ser, muito mais intenso e profundo.

Não tem dúvida que ser professor Waldorf no segundo setênio é também muito exigente. Há que se conhecer todo o currículo, mas não decorá-lo, propriamente. É preciso estabelecer uma relação com o currículo como algo vivo e presente. Permitir que ele habite dentro da gente para que a gente compreenda segredos que livros didáticos não apresentam.

Existe um caminho que se estende por trás de cada matéria: suas origens, quem na nossa humanidade a visitou com interesse e a marcou com certa abordagem. Quem a recortou para que ela se delimitasse como delimitou. E precisamos conhecer estas coisas para não sermos ingênuos repetidores nada melhores que máquinas a repassar assuntos sem alma.

Além disso, toda a matéria que está no currículo tem um fundamento real – não só no ensino fundamental, mas em toda a escola. Para que estudamos geografia ou história? Para quê estudamos biologia, física e química? Para quê as línguas e a matemática?

Cada matéria na sala de aula é uma expressão do mundo todo, de todo o universo, ao mesmo tempo que provê ao aluno uma ‘atualização de status’ da humanidade na terra. Conhecer a geografia é estabelecer uma relação com o espaço físico, a princípio, e vai além dele. A história por sua vez mostra o caminho no tempo, a ‘biografia’ da humanidade recortada e moldada pelas forças de Eus que apareceram pela Terra. Tempo e espaço!

As outras ciências mostram aspectos sensíveis da natureza. Oferecem aos sentidos fenômenos com os quais se preenche a alma de perguntas: o que aparece aqui desta maneira tem uma existência real além do que eu vejo. Uma existência que já minha lógica percebe, e que vai me empurrar além dele.

As línguas, a começar pela nativa mostram o modo com que o seu povo se relaciona com o mundo. E cada língua revela desta maneira sua origem. E a matemática – as matemáticas, revelam a grande engrenagem do espírito desperto que se revela no dormir de todas as coisas.

De toda a forma, existe sempre o modo com que se apresentam estas matérias para que surja no aluno um espírito curioso e interessado que a partir daquele contato não queira mais abandonar o caminho da descoberta. Há que se aprender a pensar sobre as coisas. Há que se dar a oportunidade da liberdade para o resto da vida do ser humano que está diante da gente na escola. Isto é encantador.

Ms como despertar a vontade de aprender para sempre na vida? Tem que ser através do despertamento da vontade em si. E isto pode ser conseguido pela apresentação ao aluno do conteúdo pela arte – este é um mistério enorme, mas basta imaginar que a arte identifica algum assunto de uma maneira absolutamente compacta, original e verdadeira.

Ainda além, é preciso ter uma reverência pelo ser humano que está diante da gente. E talvez ser um professor Waldorf exija tudo isso e ao mesmo tempo todo este conteúdo, tão pesquisado e tão digerido pelo professor, tão artisticamente recriado diante do aluno não seja propriamente o que ensina.

O ensino se realiza no testemunho do trabalho interior do professor para ser alguém digno de estar presente diante de seu aluno. É isto que ensina. Quando o aluno olha para um professor pela metade, incompleto, imperfeito, mas cheio de vontade de chegar lá.

Estamos todos no caminho, afinal. Isso é precioso. Não existe a necessidade de medir se os alunos estão um passo atrás ou professor que um passo a frente, ou se isso é o contrário. Estamos no meio… de uma humanidade. A cada um de nós vai caber uma tarefa e o esforço em cumpri-la da melhor maneira possível é o que vai impulsionar-nos adiante.

No caso de ser um Professor Waldorf é preciso seguir um caminho proposto: a ciência antroposófica. Não é possível achar um livro que ensine outra coisa sobre esse assunto que substitua o caminho galgado pelo professor. Tudo o que estiver pronto vai ter sempre uma falha clamando: “faça a sua parte!” “Tudo acontece a partir de você mesmo!” “Não existe substituto para você neste trabalho!” E não adianta ter preguiça.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.