O Pensar nosso de cada dia

1 julho 2014, Comentários 0

faca-afiada-300x220Não sei se você também, mas a maioria das pessoas que eu conheço pensa o tempo inteiro. Essa capacidade – a de pensar – é na verdade uma das ferramentas mais afiadas que nós temos. Não existem muitas coisas que nos atinjam se antes de tudo tivermos pensados sobre elas, não é mesmo?

Desde pequenos ouvimos de nossos pais: “não brinque com fogo, porque você se queima,’ ‘não use esta agulha, porque ela vai te espetar,’ ‘não corra, porque você cai’. Muitas vezes comprovamos o valor destes conselhos um pouco tarde, e sempre atribuímos o acidente a poderes sobrenaturais dos nossos pais. Eu ouço as vezes: ‘minha mãe é bruxa!’

Poderes sobrenaturais, mesmo, provenientes do pensamento.

Aprendemos bem cedo a pensar, pensamos e nos surpreendemos de conseguir com o pensar viajar a pessoas que não estão presentes, ou a lugares distantes. Podemos trazer à mente experiências passadas e planejar futuras.

As vezes somos excelentes pensadores – há quem viva disso! Pensamos o tempo todo e sobre todas as coisas. Somos engenhosos, somos espertos, rápidos. Nós calculamos, bolamos, ponderamos, prevenimos, planejamos, elaboramos…

Pensar é uma ferramenta poderosa, vai aos poucos se tornando como uma navalha afiada. Seremos com o tempo, capazes de comunicar nossos pensamentos de tal forma que outras pessoas possam compreendê-los e ainda, conquistaremos com o tempo a capacidade de compreender o pensamento dos outros.

É uma maravilha incontestável a capacidade de pensar.

Mas para muitos de nós – talvez quase todos – já o fio do pensamento está gasto e rombudo!

Já te recomendaram não usar lâmina em coisa quente, ou contra tal material, não abrir garrafa ou usar para outros fins que não do corte, ou enfim, não deixá-la a toa para não se estragar? Acho que com o pensamento é a mesma coisa!

Pensamento cortante é o que fica estojo, pronto para ser usado quando necessário. Se a gente usá-lo para qualquer coisa vai precisar afiá-lo depois.

Assim é. Passamos o dia inteiro pensando a gastar o fio. Desfiamos roteiros intermináveis que saem do nada e levam a lugar nenhum. Não temos propósito nem perseverança o suficiente para resolver o que deve ser resolvido com o pensamento e deixá-lo quieto de novo.

É o mesmo que viver a brincar com uma faquinha: corto um galhinho, desenho na terra, brinco de jogar para cima – e são várias atividades que me trazem diversão e prazer, e até mesmo algumas habilidades, no entanto, quando é preciso usar a faquinha para cortar alguma coisa de fato, ela está sem fio.

As mãos não param se estão com a faquinha: “quanto vai precisar Portugal para entrar na próxima fase da Copa? Qual o nome do goleiro do México? Fulano conseguiu comprar o carro porque apoiou-se em tal ou qual estratégia, o que me lembra de que minha sobrinha queria comprar um apartamento, com um dinheiro herdado. Pobre do pai dela, morreu tão cedo! Teve uma viagem que eu fiz com eles em que conhecemos uns templos budistas… Tenho que tirar a roupa da máquina. Será que vai ficar quente o dia? Ah, não posso esquecer de ficar no sol para sintetizar vitamina D. Será que adianta dentro de casa, pela janela, ou tenho que ficar lá fora…”E por aí vai, um pensamento atrás do outro como um fio interminável que perde o fio.

A gente precisa descobrir como é ficar com as mãos livres e ter as ferramentas todas na caixa de ferramentas a nossa disposição. Para parafuso: a chave de fenda! Cano? Chave de boca. Para prego é martelo ou pé de cabra. Nada de ficar com a ferramenta feito brinquedo na mão. O mundo tem muitas tarefas a serem cumpridas e se a ferramenta está rombuda ou estragada, não serve. Afie e guarde.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.