O Passo Largo

20 janeiro 2014, Comentários 0

Hepp 01Talvez você esteja com aquele desespero por ver que é chegada a hora, que de hoje não passa, que tudo depende de você dar o passo final, mas… te falta força, coragem, prontidão. Pois eu posso afirmar que se deu desespero não é hora ainda. Se faltou prontidão, bom, você veja: faltou prontidão! Você não estava pronto ainda e ‘refazer’ um ano não mata ninguém.

Abrindo aqui um parênteses, a reprovação tornou-se um mito. Infelizmente não se usa esta ferramenta como se poderia usar: para adequar uma criança a um grupo específico, talvez, mas, e principalmente, para adequar a criança ao nível de maturidade que ela precisa para caminhar direito, para não ser lanterna a vida toda e em tudo. Para armá-la das ferramentas realmente necessárias – sociais, cemocionais, intelectivas, físicas e tudo isto em tantos e ilimitados âmbitos! E bem no fim a reprovação resulta na perda da auto-estima por ter que se comparar com gente que tinha mais capacidade de compreensão das coisas em uma certa época da vida.

Talvez a gente esteja meio dormindo quando olha para as crianças e não tem coragem para recolocá-la no ambiente da escola – talvez a gente intua que a vida não se faz propriamente de escolas e classes, mas de eras, de tempos, de amadurecimento e talvez a gente já tenha quase claro que as pessoas tem dentro de si todas as ferramentas que precisam para se encaminharem na vida.

E a gente olha para a criança e a condena a uma reprovação por ‘incapacidade intelectual’, por ‘descontrole comportamental’ e muitas outras coisas que rimam com isso. Não só a criança fica marcada, mas a família que vai carregar o ‘peso’ de um sujeito que não se encaixa!

Pior que tudo, este nosso intróito no universo da repetição de um ciclo passa a ser sinônimo de falha e não de adequação. Agora pense, se fosse diferente, se no fim de um ciclo o grupo de adultos que está te dando apoio está certo que o melhor seja refazer o ano e você não sai com uma camiseta pichada ‘incompetente’, pense como seria proveitoso?

Não carregar culpa, não lastimar, somente poder refazer o mesmo caminho, de maneira original e fresca, com o ser que você é hoje. Armar-se das ferramentas necessárias para ir para frente com adequação e potência!

Assim também na vida, se não se tem todas as ferramentas para dar um grande passo, ‘o grande passo’, dê uma olhada geral na sua empreita, verifique a meta e o que, de fato, está te faltando. E se precisar dar um passo para trás para ter melhor impulso, não se culpe mais: dê! Não precisa vestir camiseta, carregar uma bola de ferro. Só dê o passo.

O passo que parece ser um retrocesso é o passo da segurança, o passo da respiração, o passo da coragem. Se precisar dar este passo e aguardar o novo ciclo, melhor que o faça agora. Um salto dado sem prontidão pode resultar em uma aterrizagem torta, em um grande desequilíbrio, em um desastre. Por outro lado uma parada prudente pode te permitir olhar com mais frieza e mais serenidade a próxima oportunidade.

Eu sempre digo que a gente não deve esperar e esperar a hora. Mas faz parte do aprendizado maior reconhecer a hora. E a vida está plena de treinamento. Não vai ser assim a vida inteira, sossegue! Haverá um momento em que você estará absolutamente pronto para dar o grande passo e quando este momento chegar, você não será um menino com perninhas curtas, você conseguirá dar o passo largo e seguro de um homem.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.