O outro lado da moeda

1 março 2013, Comentários 0

provaAs vezes na vida tem uns revezes e a gente se arrepende de não ter feito isso ou aquilo. As vezes a gente queria voltar atrás para poder reformar as coisas e deixá-las de acordo com o nosso julgamento atual, com o que a gente achava que as coisas deviam ser. É difícil esquecer as perdas, a culpa, tantas destas coisas que torturam por conta de estarem seladas no passado.

Mas há outras perspectivas para o congelamento das ações no passado. Uma vez que elas tenham sido praticadas, não se precisa mais mexer nelas. Isto é na verdade uma graça se olharmos sob um novo ponto de vista. Veja, uma prova que você tenha que fazer na escola causa sofrimento porque ainda falta um mês para ela acontecer. Neste período o teu compromisso é de cem por cento: é preciso ler e estudar e revisar e ainda assim, até o dia da prova existe esta pendência. Há uma vontade que o tempo não passe tão rápido, você quer frear o tempo. No entanto, após a prova feita, acabou-se o trabalho. Vêm depois disso, claro a nota da prova, mas você não tem mais nenhum compromisso com ela.

Penso em tarefas que devem ser cumpridas e que a gente leva um século se arrastando na preguiça: lavar a louça é um exemplo. Você almoça, tem que tirar tudo da mesa, arruma a cozinha e sobra a louça na pia. A louça ainda é fresca, quente. A gordura da comida ainda está brilhante sobre os pratos e não grudenta, opaca de esfriar na pia. Os copos ainda não secaram. Se lavar neste momento é rápido, mas a preguiça empurra a tarefa para diante, e fica aquela coisa por fazer, cheirando na pia.

O maior presente de ter o tempo esta característica – de o passado abocanhar o presente com essa pressa  – é relativa a sentimentos perturbadores. A gente é assaltada pelos sentimentos, pela raiva, pelo ciúme, pela inveja por exemplo. no momento em que eles aparecem eles ganham toda a atenção. O coração muda de ritmo, a respiração e os gestos dão testemunho do assalto , e você se bate com eles para os dominar.

Bom, suponho que a maioria de nós desejasse dominar tais sentimentos ao invés de ser dominado por eles. Ninguém quer largar nas mãos desses sentimentos a responsabilidade sobre as ações. Sim, porque eles são bastante traiçoeiros: uma vez que ele mova um indivíduo para uma ação cega, logo ele desaparece, como some pela porta dos fundos e entra e o que aparece em seguida não é nada mais nada menos que o arrependimento.

No entanto a gente pode dar um passo para trás antes de o sentimento assaltante tomar as rédeas. dar um passo para trás e se responsabilizar por si. mandar o coração aquietar e deixar o sentimento ser engolido pelo passado.

Eu devo concordar que isso é um treino. O mais das vezes os sentimentos acometem com tanta violência que é impossível refreá-los. Saímos quebrando tudo, despejando palavras ácidas ou amargas que nem deveriam ser ditas por aí, e o que é pior! Sobre as pessoas mais delicadas, simplesmente colocando tudo para fora.

Então é preciso juntar os pedaços, limpar as feridas, cuidar delas. E neste momento a gente pede perdão. Não é fácil, mas é o melhor a fazer. Pede perdão para quem você feriu, para quem testemunhou a sua fúria, mas, mais importante: pede perdão para sim mesmo.

Neste momento recebemos a graça. Podemos confiar que o passado engole tudo. Podemos agradecer que tudo de ruim e errado que a gente fez não está presente. Que o que está presente é um ser humano com vontade de melhorar sempre e que, na próxima investida, estará mais forte.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.