O outono e a expectativa da primavera.

20 maio 2013, Comentários 0

brotoSei perfeitamente que estamos no outono, está frio como em Curitiba, mas tem (tenho) toda essa ansiedade com a primavera, como se fosse plantar uma semente e em três minutos o broto já aparecesse, daí mais uma hora e já está ali a planta, amanhã está florescendo e então…

Então já deu para perceber que a natureza teria que obedecer toda essa insanidade humana da pressa, o regozijo, o mastigar, o saborear, as bocadas não existiriam mais. Nem o apreciar o aroma que sai das panelas antes do almoço, pá pum, surgiu comeu acabou. Assim chegamos rápido à morte também, sem termos conseguido viver amplamente.

Aprecio as dietas por isso, as macrobióticas, as crudívoras, as churrasquentas, o indivíduo elege o alimento que mais aprecia e começa a descobrir tudo sobre aquilo, como se tempera, como se mantém fresco, como colhe, qual é o aroma, a cor, o tempo de conserva, o tempo para tirar o sal, enfim, paquera, namora e aprecia tudo o que aquele alimento provê.

No dia seguinte o mesmo tipo de alimento está com outra roupa, dentro do empadão por exemplo, no outro dia depois de colhido vira salada, as ervas que se põe, a bebida que se escolhe para estar ao lado. Lembrei da minha vizinha que faz pão,  é aquele pão maravilhoso, mas quando entramos na casa dela, o cheiro do forno, sobre a mesa os tops, geléia, manteiga, patê e nata, não é sentar e se empanturrar, é estar à mesa.

Estar à mesa com amigas, com um pão feito num instante (para ela que sabe fazer), mas e daí? O que era um pão, se a gente fala pão parece uma coisinha simplesinha, mas esse pão vira uma refeição muito mais saborosa, um compartilhar mais afetivo. Um viver a hora da alimentação, amorosamente.

Nem só os domingos merecem o almoço em família o repartir entre amigos, talvez hoje seja o dia de fazer nhoque, um bolinho de cenoura, um suco de fruta natural para beber junto ao mamão de manhã. Quanto ao beber o café, que nos deixemos invadir pelo aroma e se possível darmos uma risada se faltou o açúcar afinal é só adicionar mais um pouquinho.

Esse é o olhar que preciso e procuro manter para a minha vida, o do sentar, olhar, cheirar, pegar, sentir a textura, a cor, os sons, a vida é rica em detalhes. Podemos apreciar cada detalhe, cada pessoa, cada refeição, cada abraço, cada olhar, cada bom dia ainda embrulhada numa cama quentinha, ou podemos pular da cama,  mastigar e engolir a vida como num fast food, prático, mas será que eu quero minha vida tão curta, rápida e descartável assim? ainda sabendo que a vida pode ser prática com guardanapos de papel, os guardanapos de pano protegendo a roupa parecem ser muito mais acolhedores.

 

 

Regiana Miranda

Professora de artes e trabalhos manuais e co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner de educação para a autonomia de crianças, adolescentes, adultos e idosos. Regiana acredita no amor como fonte transformadora da vida e inspira pessoas a se tornarem mais conscientes do seu próprio amor para viverem mais felizes e de forma mais autêntica.