O olhar do menino

19 março 2013, Comentários 2

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A gente adora refrigerante, sair para a balada, misturar energético com uísque, beber cerveja até cair, voltar para casa de madrugada, ficar no face a noite inteira, dormir de dia. E detesta caminhada, detesta salada, detesta exercício físico, detesta arrumar o quarto, detesta lavar louça, detesta cozinhar. Que jacu usar roupa bordada, que mico sair de blusa de tricô, que ridículo sapato costurado!

Se não da nossa boca, se não todas estas frases, muitas passaram pela nossa mente. Julgamentos, escolhas de dietas, de princípios, de atitudes a favor ou contra algum modo de ser no mundo. Posicionamo-nos todos os dias e muitas vezes feito adolescentes escrachando com o que quer que seja diferente da nossa ideia de prazer.

Somos tentados todos os dias a ceder aos caprichos do corpo, a subordinar o corpo a caprichos da alma. Lá pelas tantas nos acomete o medo da morte, o medo de adoecer, da dor, da velhice. Ou por algum motivo menos egoísta, talvez, por compaixão pela dor dos outros, por compaixão pelo planeta, por outro motivo melhor começamos a melhorar nossa dieta diária, começamos a cortar as ‘drogas’ da nossa vida: ‘não posso misturar, me faz mal’, ‘não posso beber porque vou dirigir’, ‘tenho que levar minha irmã para casa’.

Mas enquanto estamos sozinhos temos a nítida impressão que podemos dar uma fugidinha das regras – das nossas próprias regras, dos nossos princípios. As vezes são relativas ao prato de comida, aos hábitos diários, as vezes são  regras morais de não ver televisão ou não ver na televisão ou no computador programas apelativos ou imorais. Mas cedemos muitas vezes, somos condescendentes, autoindulgentes.

Não há nada melhor para nos dispor às regras do que os nossos meninos. Nossos, mesmo. Os filhos e filhas do nosso irmão, do vizinho, dos pais dos nossos alunos, ou os nossos mesmos. Cada vez que você estiver diante de servir-se um copo de veneno você vai olhar para si mesmo com os olhos do menino que imita cada ato seu. E o que é fantástico: sem críticas, sem julgamentos!

Os meninos têm esta capacidade da limpeza imaculada. Não existem critérios, não existe o culpar, não existe nenhum julgamento no olhar dos meninos, não existem demandas, não existe exigências. Olham-nos com o olhar limpo de quem está aprendendo tudo através da gente.

E a gente fica desconcertado. Há tantas exigências que a gente faz todos os dias para si mesmo: acordamos com dor nas costas nos prometendo que vamos fazer uma caminhada, e que vamos fazer academia, que vamos fazer ioga, que vamos parar para meditar, parar de comer tanto açúcar, parar de beber.

Todos os dias cedemos e vamos levando há anos a preguiça, a indolência, a irresponsabilidade. De repente nos vemos espelhados nos olhos dos meninos. Nos olhos limpos de quem não cobra nada de nós. De quem está aprendendo tudo com toda a confiança. E não nos dá coragem de quebrar a nossa própria palavra. Não temos mais coragem de continuar fumando. Não temos mais coragem de sermos incoerentes.

O olhar dos meninos é para nós o espelho mais fiel. Nele encontramo-nos com nossas próprias expectativas de tornar o mundo melhor, de levar a humanidade a uma experiência da paz e da bem-aventurança. Não queremos mais engordar, ficar na cama, beber até cair. Queremos valorizar o trabalho dos nossos colegas, queremos que eles saibam que tudo o que eles fazem nos importa e que eles mesmos são importantes para nós. Queremos antes de que seja tarde, agradecer por todo mundo que colaborou para que nós estivéssemos aqui. Para que nós tivéssemos a capacidade de nos enxergar no olhar dos meninos. São eles que nos ensinam.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    Me arrependo sempre cada vez que me lembro dos terríveis exemplos de violência e crueldade que pratiquei contra os meus filhos. E não me consola o fato de ter pouca idade na época. A mudança está vindo tarde.

    • insistimento

      Não importa quem você era, importa quem você é. Enquanto crianças, fazíamos coisas de crianças. Agora que somos adultos, podemos nos responsabilizar.

      O que você é agora é o resumo de todas as suas vidas. Não há porque se culpar se em algum momento matou ou bateu em alguém. Esta era, naquele momento, a sua forma de dar atenção ao outro ou pedir atenção para si.

      Bola pra frente e vida que segue.