O Mal e Deus

12 março 2014, Comentários 0

 premonicion-remedios-varoSempre pensei como nós os humanos éramos ingênuos em dar a uma entidade externa a fonte do bem e do mal. Achei sempre curioso, porque eu reconhecia dentro de mim mesma estas tendências emergirem desde sempre. Muitas vezes eu desconfiava de que não fosse assim tão meu o ‘mérito’ dessas criações, ou que talvez eu mesma não fosse a única fonte. Pensava que poderia mesmo ter alguém mais por aí que me soprasse aos ouvidos as boas ou as más ideias.

Agora veja: tudo isso acontecia debaixo da minha pele, dentro de mim. Ninguém nunca pode perceber aquilo que passa dentro de mim. O único modo de percebermos a maldade ou a bondade de alguém é se esta pessoa permite que estes impulsos venham para fora, para o mundo.

Então a minha conclusão é de que o mal e o bem que eu tenho dentro de mim talvez sejam provenientes de deuses externos a mim, do cosmos, de forças de criação primordiais ou o quer que seja que a gente tenha decidido que cria estas forças. Mas vê-las por aí manifestas no mundo é responsabilidade absoluta do homem que mora no mundo.

Então, se a gente olha para as tarefas de uma vida inteira da Madre Teresa, por exemplo, a gente vai dizer que ela era inspirada por um ser superior. Mas você é capaz de dizer que sem a vontade desta mulher alguma coisa teria acontecido? Você acha que poderia ver a bondade da Madre Teresa passeando por aí?

Bom, eu vou assim, deliberadamente excluir exemplos de maldade do texto. Honestamente eu gostaria de que fôssemos incapazes de produzir manifestações malignas. Mas cada um de nós é capaz de evocar um evento maligno que ficou marcado na história. Portanto, examine os personagens. Você acha que eles não tiveram participação nos eventos?

É possível acreditar que alguma coisa aconteça no mundo sem que a gente se empenhe?

Eu não diria que ‘Deus não tem nada a ver com isso’. A Criação toda nos fez polares entre mal e bem. Agora não se pode dizer que a miséria é responsabilidade de Deus. As guerras são responsabilidade de Deus. A fome, o abandono, a violência, também. Tudo isso é nossa responsabilidade, já que são manifestações das nossas negociações e arranjos no mundo.

Precisamos pensar que se as coisas são percebidas graças ao meu empenho em fazê-las materializar-se, então o poder está todo comigo para fazer e desfazer tudo o que é manifestado.

Portanto chegamos ao ponto da evolução que mais me incomoda: a dicotomia entre sentir-se autor e sentir-se vítima. Fico indignada quando a pessoa reclama: ‘o síndico deixa o lixo fora do lugar’, ‘o juiz é prepotente’, ‘a vizinha é briguenta’, ‘o governo é corrupto’…

E eu? Eu sou a vítima do destino cruel, destituído de pernas e braços que me permitam executar minha vontade? Quer dizer que esta língua que fala mal de todo mundo e que está guardada dentro da sua boca age sob influências externas? Você é o sofredor de todos os males em um mundo poderoso demais para ser enfrentado?

Ora, não se engane. Você não tem prazo para mudar o mundo, mas a mudança é você quem faz. O universo inteiro está vivo dentro de você e a sua palavra, o seu pensamento e a sua ação são a manifestação divina de todo o bem ou o mal que possam se manifestar no mundo.

Deus existe em todas as suas ações. Você manifesta o grande poder como Deus que é na sua própria vida, e a tarefa me parece ser alargar cada vez mais os horizontes da própria vida para que a Ordem dentro do Caos se estenda por toda a sua casa, por toda a sua vizinhança, por todos os teus relacionamentos e se repita em todas as vidas.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.