O irresistível em nós

30 outubro 2013, Comentários 0

pedra brutaPor mais que a gente não queira, a gente se conhece demais para se achar alguém muito interessante. Infelizmente testemunhamos todos os nossos mais secretos pensamentos, aquilo que não gostaríamos nunca que ninguém soubesse, o ‘inconfessável’. Os anos vão-se somando e com eles se somam também hábitos vergonhosos de ações ou sentimentos, de pensamentos e palavra. Somos vítimas do tempo que nos acompanha enquanto conhecemos o mundo, e ele vai nos amarrando em memórias enfiadas nos recônditos mais escuros das nossas células. Aprendemos a reagir aos nossos medos, às nossas expectativas e vamos nos tornando aos poucos gente muito dura e muito seca.

No entanto quem sabe disso é a gente somente. Ninguém põe no jornal: “sou medroso e me encolho diante de pessoas agressivas.” “Tenho medo de escuro”. “Me apavoro de ficar sozinho.” “Tenho medo de que ninguém me enxergue.” “Tenho medo de ficar pobre.” “Tenho medo de sofrer.” Ninguém quer que os outros descubram sua fragilidade mais guardada. A gente guarda nosso tendão de Aquiles com todo o cuidado. Claro! Alguém aí gosta de sentir dor, ser ameaçado de acabar, de se perder?

Eu imagino que se gente clarividente nos olhasse, essa gente enxergaria as pessoas de maneira totalmente diferente do jeito que elas se mostram. Eu acredito que sobre a gente se possam ver cascorões que nos servem de escudo, as capas grossas, podem ser vistas grandes escolioses, inchaços e torções pelo corpo todo, isso por vivermos nos encolhendo e nos protegendo.

Damos graças porque clarividentes são poucos. Nos basta um rímel e um batonzinho e estamos 100% diante dos olhos alheios. Ora, mas isto é pura maldade. Nos olhamos com olhos pouco caridosos. Somos exigentes demais e não conseguimos olhar para o lado bonito que existe em nós.

Na verdade estamos todos no meio do caminho. Estamos no meio de uma batalha feroz contra aquilo que não queremos ser e que nos pesa todos os dias. Somos iniciantes, aprendizes em quase tudo e quando estamos sozinhos, quando deitamos a cabeça sobre o travesseiro e vamos dormir, nós nos apercebemos dos nossos erros e neste momento nós mesmos nos prometemos fazer melhor no dia seguinte. Não há entre nós quem queira amanhecer pior. Ninguém. Queremos ser virtude ambulante, pisar no chão e cobri-lo de pétalas, falar as palavras certas no momento exato, que soem musicais, perfeitas, justas. Que carreguem o sopro dos anjos, que enfeitem o mundo. Queremos que nossa mão traga alívio para quem é tocado por elas, enfim, queremos ser o bem que habita a Terra. Ah, mas aí você vai se encher de vaidade! Pois paciência! A gente não consegue tudo ao mesmo tempo. Se tudo isso acontecer e tiver ainda a vaidade, pelo menos o resto já está conquistado e agora só falta lutar contra a vaidade.

Não. É hora de parar de olhar para si com tanta repulsa. Todo mundo tem um grave defeito. Há alguns que não conseguem escondê-lo, e esta é a única razão para a gente achar-se o único ser humano que além de defeituoso é hipócrita. Isto não é verdade! A verdade maior é que a gente se esforça muito. A gente adora o que é melhor nos outros e querer para nós esta virtude é as vezes estopim para a crítica infundada ou para a inveja. Mas antes de tudo existe a admiração. Tem que contar com isso. Depois, a inveja e a crítica são beiras a serem desbastadas. Tudo o que é bonito pode receber ainda um tratamento para realçar a beleza.

Então mude o foco. Há em você alguma coisa que encantou seus filhos, sua mulher ou marido, sua mãe, seu vizinho. Mesmo que você ache que eles se iludem a seu respeito em algum momento você se distraiu e através da sua máscara tão bem cuidada eles viram um brilho daquilo que é irresistível em você. Alguma coisa que existe lá por dentro e que vem aos poucos, aparecendo.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.