O Intelecto de fora

7 agosto 2014, Comentários 0

caminhoTodo mundo sabe ler um jornal, uma notícia na internet, sabe bater papo sobre várias coisas, fazer uma lista de compras e trabalha em algum lugar. A gente usa para isso nossas capacidades intelectuais, que por mais que uns e outros quisessem, variam pouco de um ser humano para outro e não levam a caminhos biográficos muito diferentes. Sempre se vive o mesmo: é algo com a família, o casamento e o trabalho. Tem mais? Aqui e ali um detalhe.

Mas claro que está todo mundo na mesma batalha: a batalha pela felicidade. E luta-se com as armas que se têm, claro! Sempre a gente se apoia naquilo que mais conforto nos traz. Para uns é o charme, a beleza, para outros um talento artístico, para outros o intelecto.

Você pode se tornar escravo de qualquer coisa. Sério. Qualquer coisa, mesmo a melhor que você conheça pode representar uma muleta e mais tarde um vício do qual fica difícil se libertar. Pois eu experimentei me apoiar no intelecto. Usava para todas as coisas. Imiscuí o intelecto nos assuntos das ações e fui além: meti o intelecto nos assuntos do coração. Foi uma lástima. Nada dá certo, porque ao invés de se viver as coisas, você teoriza…

Enfim, depois de um tempo eu vi que estava perdendo uma parte da vida porque eu tinha sempre que passar por um ‘atravessador’ qualquer vivência que eu tivesse. E como esse meu atravessador só conhecia coisas velhas, tudo o que é novo ele não reconhecia e jogava fora! Desprezava, negava, enfim, de algum jeito me tirava a oportunidade de experiência presente.

Lá pelas tantas eu resolvi deixar o intelecto sentado do lado de fora de onde eu estivesse: ‘quando precisar de você eu te chamo!’ Mas não é fácil deixar o intelecto do lado de fora. Sobre tudo ele quer dar um pitaco – bom, foi assim a vida toda, por que abandonar o hábito agora?

Não é no conjunto diário das coisas que eu consegui contornar o hábito. Sabe oque eu fiz? Comecei a lidar com fenômenos que não tem como o intelecto se meter. Hoje são contos de fadas.

Um conto bem contado, com as imagens mais próximas do original abre portas na alma que simplesmente prescindem do intelecto. O intelecto pode até tentar dizer alguma coisa: príncipe burro! Pai desnaturado! Por que não foi direto á bruxa? Etc, etc Mas o conto nem estremece. Ele simplesmente não se abala com as opiniões do intelecto e está ali, pleno de si mesmo, como se fosse um salão, como se fosse um castelo, como se fosse um mapa de muitas verdades.

Você pode interpretá-lo psicanaliticamente ou misticamente. Pode tentar impor um monte de ideias e elas não precisam estar erradas, mas o conto não se abala com isso. O conto é uma realidade. O conto É. É, somente.

Ah, sim, quero lembrar que não tem nenhum demérito o bom trabalho de escrutinar os textos para que vistam esta ou aquela visão – que realmente os contos abarcam, mas é preciso ter em conta que isso não os resume nem os limita. Não é para tampar o buraco de uma cárie que o conto serve. Não para uma carência que se resume a uma informação. Fazer isso é reproduzir uma fotografia de uma paisagem e querer dizer que é tudo. Não é!

Eu imagino que este Ser do conto nem é intencionalmente caminho para alguma coisa. Ele existe como os caminhos que na sua intenção são somente aquilo que está a vista, presente, e que se emenda em novas paisagens a cada passo que você dá, mas ele mesmo está sempre parado. Parado e inteiro, do começo ao fim. Você é quem caminha nele, entende?

Assim, se você tiver oportunidade, vá atrás de contos. E leia deixando o seu intelecto se bater – frustrado – porque conto não tem alça nem fio pendente que se possa puxar e desenrolar. Leia muitas vezes. Leia antes de dormir e passeie no conto durante o dia. Não há nada mais pleno ou libertador.

De repente você percorre o conto de começo ao fim, você enxerga a paisagem e se maravilha com a imensidão que está ali guardada. Coisas que nem mil anos de estudo com o intelecto poderiam alcançar.

Meu amado intelecto de todo o dia, não tome pelo lado pessoal. Somente que você não é ferramenta para tudo!

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.