O Curandeiro

25 janeiro 2014, Comentários 0

tapyro-baro_good_samaritan_thumb1_thumbNa minha infância, eu não sei bem quando, mas eu devia ser bem pequena, eu ouvia muitas histórias. Histórias ou ‘causos’ que se contam quando se reúnem os tios da gente e os vizinhos. Enfim, em algumas dessas ocasiões eu ouvi sobre uma pessoa que tinha sido agraciada pela intervenção de um curandeiro. Não bastasse o fantástico de existir o curandeiro – tem pessoas que como eu acham a existência de uma pessoa assim uma janela para respirar no mundo. Como se as coisas fossem excessivamente sólidas e retas, excessivamente lógicas e previsíveis. E então a existência do curandeiro para mim também era uma cura.

Mas a conversa sempre girava sobre o fato de que o curandeiro tinha tirado com sintomas e tudo uma doença de uma vida inteira que esta pessoa tinha sofrido. Assim, viver mais de trinta anos sofrendo de artrose, estar totalmente encarquilhado, torto e cheio de dor em cada movimento e, de repente, o curandeiro vem e lhe tira tudo!

Esta era uma história que sempre se repetia na minha casa, mas não por força do milagre – vamos reconhecer que isto pode ser colocado na categoria de milagre. Mas sim, por que se comentava que mal passado um ano de ‘saúde plena’, a pessoa começou a apresentar a mesma doença de novo.

‘Mas por quê? A gente ouvia esta pergunta e outras sobre a pessoa ‘não ter aproveitado o milagre’ e umas dizendo que o curandeiro era uma fraude e que ‘não se devia confiar em tais pessoas.’

Eu ouvia atenta todas as vezes esta história porque ficava na expectativa de um momento que sempre chegava entre os comentários. Gostava de ouvir aquilo que no meu coração eu resolvi que era ‘a verdade’: ele foi curado, sim, mas quando uma pessoa tem uma doença dessas ela está tão acostumada a sentir aquela dor, na falta desta dor ela não sabe o que fazer com o que sente, com o que pensa. Ela não sabe reagir ao mundo. Fica com ‘um buraco na alma’, ‘uma carência’ que precisa ser preenchida.

Eu adorava ouvir estas palavras. Pareciam que ao mesmo tempo que condenavam o infeliz pela desgraça de ter sempre a mesma dor, davam também a ele um poder enorme. Não era a doença que acometia o homem, mas o homem que usava a doença para si! Eu matutava naquilo. Como assim escolher ter artrose de novo? Como assim escolher sentir dor e ficar incapacitado? Isto me escandalizava, mas eu sempre achava que estava certo: a pessoa que escolhia.

Bom, quando eu era pequena escolher uma doença era para mim um mistério absoluto. Pense bem: uma pessoa poder viver por longos anos sem nunca ter uma peste! – curiosamente a gente não conhece ninguém que não sofra de alguma coisa.

E ainda sabemos atribuir a origem: ‘todas as mulheres na família do meu pai tem varizes horríveis’, ‘eu herdei enxaqueca da mulherada da família da minha mãe – até a menopausa toooodas tinham’. Ou senão é um acidente, é o azar, é a postura, é a comida. E por mais que isto tenha razão eu gostaria de colocar também na lista a força da nossa escolha pessoal.

É assim que toooodos ficam carecas, mas tem um irmão que não fica. Todos morrem do coração menos um. Todos tem derrame, mas um fica. Por quê? Eu tenho a impressão que a gente vai mesmo aprendendo a SER com as outras pessoas e que a gente se junta mesmo em famílias que decidem morrer do coração, mas cada um decide sozinho.

E observando as minhas pestes pessoais, o modo com que eu me relaciono com a vida e quais são as minhas doenças me faz acreditar mais e mais que as doenças são em alguma medida uma dose de autopunição, por um lado, e de autopiedade, por outro. Imagine que só você é testemunha dos seus maus pensamentos, sentimentos e ações. E você, crítico como possa ser, decide se punir pela incapacidade de mover as mãos, pela incapacidade ser alegre, livre, sei lá. E por outro lado você exige de todos os assistentes que se penalizem de você: pobre coitado! A vida toda sofre deste mal! Compreende?

Eu ainda não descobri como é que a gente se livra da dor, mas é preciso observar para quê. É preciso se reconhecer autor, também da doença. É preciso que a gente reconheça que também aí tem a mão da gente escolhendo caminhos de dores, de artroses de vida inteira e que não adianta vir um curandeiro e tirar. No fim, a gente tem que querer.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.