O cobertor na medida

8 maio 2013, Comentários 0

A vida coloca para a gente desafios. ‘Faça!’ Ela nos grita. Ensurdece a gente empurrando-nos do confortável sofá da sala, ou da frente do computador. ‘Faça alguma coisa!’ Mas, olha… que preguiça!

Mais fácil é ter ideias. No entanto nunca ouvi da vida um grito conclamando a gente a ter uma ideia. E é preciso concordar – ideias aparecem aos montes, basta estar aberto para elas, estar com o ‘captador’ ligado. Ideias são material transbordante por aí, na verdade. Mas fazer as coisas criarem materialidade é uma outra história. Não é aquilo passivo de ‘deixar entrar’, ‘deixar acontecer’. Não! Trata-se de empenhar muito mais que somente a capacidade de imaginar, de engenhar. Efetivamente tem que se plasmar um objeto, e isso significa por os músculos na empreitada, toda a vontade, enfim.

Por menos que pareça ser um grande empenho, quem já tentou sabe o que é que custa lá dentro de si mesmo. Dor física, preguiça, desânimo, falta de motivação, falta de paciência, falta de perseverança são algumas das coisas que atrapalham, e isso tudo qualquer um tem dentro de si.

Desde cedo lutamos com as necessidades mais reles: arrumar a cama, trocar de roupa, tomar banho! Eu até posso concordar que isso é típico de uma fase da vida, mas tenho certeza que, mesmo que você não esteja nesta fase em que você pensou, você também se viu derreter na frente da tv ou do computador. Ou sei lá mais onde que foi amarrado pela preguiça. Se não for o seu caso, honestamente eu tenho que parabenizar você.

Mas vamos um passo além: estamos em um tempo que exige que não façamos as coisas sozinhos. Temos que contar com o outro, crescer com o outro, permitir que o outro participe das nossas empreitas, da materialização daquelas ideias, de agir junto. O desenvolvimento da força que nos faz heróis por romper com a estagnação interna agora tem um complicador: tudo conta com um outro. O outro que precisa concordar, que precisa querer ir na mesma direção, que precisa dispor de tempo e energia como você, que precisa estar empenhado no trabalho do mesmo modo que você. Se o desânimo te acometia uma vez numa semana de sete dias, agora está multiplicado por dois, por três, entende?

Agora não é mais lutar contra sua própria estagnação, você carrega sua medalha de estar disposto e trabalhando e pode ter uma bola de ferro presa no pé. Dá vontade de desfazer a sociedade, de trabalhar sozinho. Mas não é mais isso o que deve acontecer. Não adianta somente largar mão. A tarefa de hoje é justamente esta: o segundo nível é você conquistar a medalha acompanhado.

E se não bastassem todas estas dificuldades, tem o nível três! A gente precisa ainda continuar mantendo nosso caminho diário: há que se evitar a decomposição – da nossa casa, do corpo, da nossa família, das relações. Há que se criar os filhos – e com capricho, porque o mundo precisa de pessoas melhores. Há que se atender os pais, os maridos, as esposas. Há que se cuidar da manutenção do pão de cada dia em casa – e muitas vezes isso é literal. Tudo isso sem adição de mais nenhum minuto nas horas diárias. Tem que caber tudo no mesmo tempo.

É uma luta diária em prol de sermos melhores do que somos, de dominarmos pelo menos os nossos mais brutos vícios. Talvez haja somente uma meia dúzia de pessoas que já tenham percebido estes estágios complicadores do desenvolvimento. Dá sempre para tirar férias disso tudo. Dá sempre para deixar para mais tarde. E não é pecado, nem é feio. Mas a gente não deveria abandonar nenhum desses complicadores. Cada um deles é um modo de se relacionar com a última versão de nós mesmos. Nada nos teria chegado assim difícil se nós não estivéssemos prontos para isto. É o que dizem: o frio conforme o cobertor. Somos capazes só que temos que exercitar.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.