O Caminho Interior dos Pais

26 Fevereiro 2018, Comentários 0

El Camino Interior de Los Padres

retorno ao Português por Deriana Miranda

Quando falamos de um caminho interior de pais, queremos dizer não somente uma busca da compreensão da realidade do ser humano que nos possa guiar em nossa tarefa como pais, mas também a disposição, o desejo de participar de um processo de contínua autoeducação, impulsionado pelo desejo de servir e apoiar a realização do destino dos que vieram a nós, dos que se confiam a nosso cuidado, de aqueles que costumamos chamar filhos.

Assim, pois, os pais somos guardiães do mistério de nossos filhos, para o que necessitamos atitudes básicas para que se revele em sua própria essência. Não há juízo para a criança, devemos observar, estar presentes, e termos confiança em nossos conhecimentos sobre as leis que regem os processos de desenvolvimento do homem.

Quais são as atitudes básicas para se aproximar deste ideal? Proteger, acompanhar, confortar, curar. Elas atuam juntas quando compreendemos criativamente, e elas dissipam qualquer intenção de manipulação na formação de nossos filhos.

Proteger

Proteger, além da evidente proteção contra perigos externos, implica em proteger o Mistério. O Mistério/criança que nos foi confiado a nós, os guardiães escolhidos. Apesar de ter a característica principal de ser indestrutível, o mistério/criança necessita de minha proteção, porque do contrário não se poderia desenvolver se fosse exposto às tormentas do mundo. Portanto recebo e abrigo o Mistério.

Para levar a cabo sua individualização, a criança necessita do meu olhar e de minha escuta com capacidade de reconhecer suas possibilidades, e necessita do sentido que tenho para o futuro. A conquista desta clarividência no âmbito do sentir não é uma espécie de magia, truque ou ilusão. Todo o que se requer é uma devoção profunda “a reverência pelo momento presente” e a tranquilidade (R. Steiner, GA 317).

É preciso calar e aprender a fazer o silêncio interior. O ruído e a vibração, aqui estão fora de lugar. E o quê são o ruído e a vibração na esfera da criança? Avaliar, julgar, tirar conclusões, perseguir intenções.

Acompanhar

Paralelamente ao companheirismo para a vida exterior, o que me importa é que damos tempo à criança para que se desenvolva. Mesmo porque o acompanhamento interior nos obriga a evitar que intervenhamos intencionalmente. Devemos estar ao lado da criança com uma atitude de quem espera em paz – simplesmente estar aí, presente e pacientemente. Enquanto que o gesto protetor de saborear cuidadosamente o futuro a partir do sentir da ação do momento está reservado para horas exclusivas e está constantemente ameaçado pelas distrações ou as chamadas das pressões externas, o gesto de acompanhar adiciona uma qualidade que assegura a constância: a lealdade, a confiança perseverante.

A lição da Borboleta:

Um dia um homem encontrou um casulo de borboleta e observou que nele havia um pequeno orifício. Durante horas a borboleta lutava para forçar seu corpo tratando de passar através do furinho. Passou um bom tempo observando os esforços da borboleta para sair ao exterior, mas parecia que não fazia nenhum progresso, como se houvesse chegado a um ponto a partir do qual não pudesse continuar. Apiedado, o homem decidiu ajudar a borboleta, pegou a tesoura e cortou o resto do casulo. A borboleta saiu facilmente, mas tinha o corpo inchado e as asas pequenas e enrugadas. O homem continuou olhando porque esperava que a qualquer momento as asas se estendessem para poder suportar o corpo que, por sua vez, deveria desinchar-se. Mas nada disso aconteceu. Pelo contrário: a borboleta passou o resto da sua vida com o corpo inchado e as asas encolhidas. Nunca pode voar! Ansioso por ajudar, o homem não sabia, não conhecia o processo da metamorfose que permite o voo da borboleta. Porque é o esforço que lhe dá esta capacidade: ao comprimir seu corpo pelo orifício do casulo ela segrega o fluído necessário para estirar suas asas e voar. Como a borboleta, também precisamos de tempo e do compromisso de nossas forças em nossas vidas. Sem obstáculos, e sem a força necessária para vencê-los, estaríamos debilitados.

Confortar

Confortar, no sentido da arte de ajudá-lo a encontrar-se a si mesmo. Além do consolo óbvio em relação às tristezas, enfermidades e penas, etc., é preciso que encontremos todos os obstáculos e confusões que acontecem enquanto se desenvolve a Criança, de tal forma que possamos absorver e limitar seus efeitos. A maior tristeza de uma criança e a mais profunda ansiedade se manifestam quando a essencial realização das suas esperanças se obscurece. Isto acontece através de cada experiência de desprezo e rechaço da sua vontade pura.

Quando os adultos se movem por razões alheias à relação com a criança, o desorientam impondo-lhe expectativas, demandas e restrições em suas mais pura vontade, ou transgredindo-a. Os preconceitos também são abusos. Isto significa desrespeito e/ou negligência. A consolidação de suas esperanças também se bloqueia quando a criança se encontra com atitudes negativas e formas de atuar hostis como a inclemência, a injustiça, a incompreensão e a decepção. Podemos dizer que uma criança foi violentada por motivos que nada têm a ver com a relação com ele quando, por exemplo, desenvolve uma ansiedade de fracasso; pode-se ver na expressão desconcertada e sem razão aparente que a criança está desanimada e que se sente vencido pelo “mal”.

A ansiedade frente ao fracasso: o medo de falar e a vergonha podem se cobrir dos mais diversos disfarces e em todas as formas de comportamento “anormal”, dependendo da natureza particular da criança, mas a característica principal é sempre um profundo estres de algum tipo. Estas experiências que ameaçam a obtenção da esperança na criança são inevitáveis. Mas podemos consolá-lo diante de tais situações tirando-o deste estado pela autoridade que nos foi conferida pela própria criança. Talvez muitos tenham ouvido falar de um costume existente entre certas tribos africanas e isto é precisamente esta atitude essencial de confortar da que estamos falando: o reconhecimento que implica recordar seu verdadeiro eu. Esta é a história da Canção da Criança.

Quando uma mulher de certa tribo da África sabe que está grávida, vai a floresta com outras mulheres e juntas rezam e meditam até que chegue a “canção da criança”. Quando nasce a criança, a comunidade se reúne e canta sua canção. Logo que a criança inicia sua educação, o povo o acompanha e lhe canta sua canção. Quando se converte em adulto, se reúnem novamente e lhe cantam. Quando chega o momento de seu matrimônio, a pessoa escuta sua canção, Finalmente, quando a alma vai passar deste mundo pelo umbral da morte, os amigos e familiares se aproximam e, da mesma maneira que em seu nascimento, cantam sua canção para acompanha-lo em “sua viagem”.

Mas nesta tribo africana tem ainda outra ocasião na que os homens cantam a canção. Se em algum momento da vida a pessoa comente um crime ou um ato social aberrante, ele será levado ao centro da cidade e as pessoas da comunidade formam um círculo ao seu redor para cantar-lhe sua canção. “A tribo reconhece que a correção para as condutas antissociais não é o castigo, é o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade. Quando reconhecemos nossa própria canção, já não se têm desejos e não se tem necessidade de fazer dano a ninguém.” Seus amigos conhecem “sua canção” e a cantam quando te esqueces do teu caminho. Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que afirmam ou imagens obscuras que mostram os demais. Eles lembram da tua beleza quando te sentes feio; tua inocência quando te sentes culpável e teu propósito quando estás confuso”.

Curar

Neste ponto deve-se ter claro que ao nos referirmos à “cura”, não estamos falando da eliminação de um estado de enfermidade, mas sim, da condução para o essencial. Falamos da postura da educação curativa. De integrar, reunir, de ajudar a criança a retornar a seu caminho médio (do equilíbrio).

Concluindo, podemos dizer que os pais assumimos a responsabilidade da educação de nossos filhos como um ser sagrado, enquanto que simultaneamente percorremos um caminho interior de autoeducação, o qual constitui a única maneira de criar as condições para permitir que nossos filhos possam ser quem são destinados a ser.

 

Deriana Miranda

Professora há 28 anos, 15 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.