O caminho das pedras

22 maio 2013, Comentários 0

small_portrait-of-georgesPensamentos, diz Rudolf Steiner, já existem antes mesmo de a gente pensá-los. Quem já teve a mente desenfreada de pensamentos passageiros deve concordar com ele. Mas mesmo descobertas são pensamentos já pensados. Descobrir as relações de dominância na genética foi descobrir o pensamento que organiza combinações nos cruzamentos. Uma grande descoberta, genial, na verdade. Mas antes mesmo de Mendel nascer isto funcionava assim e de velho. Ele teve que dominar sob o seu pensar uma ideia já existente.

Disso pode-se concluir que a existência de um fenômeno é fruto tão somente de um pensamento que o ideou primeiro.

Invenções, você pode me dizer, não são pensamentos prontos. Onde já se viu telefone ou barco antes da existência humana? Sim, é a humanidade que torna o fenômeno do boiar um barco, ou consegue produzir um relampagozinho dentro do fio que reproduz o som no telefone. Está bem, tem o celular, e vai ficando difícil de entender, mas se a coisa existe, é porque alguém a pensou antes.

Nossa capacidade de engenhar vem do exercício de descobrir a engenharia anterior e por-se a engenhar por si. O caso é que ficamos com pena das crianças. ‘Coitadas’, pensamos, ‘vamos poupar-lhes o trabalho’. E aí damos para elas um computador com acesso a todas as respostas do mundo: uma lagarta pendurada no teto? Google! Um ninho de passarinho com lã de carneiro? Google! Isto quando não os cercamos antes de professores, apostilas – respostas que lhes fazemos descer goela abaixo sem que eles nem sequer tenham cogitado uma pergunta.

E fazemos isto por anos. Não por um ou dois, mas pela vida escolar inteira. Ninguém se admira de nada porque não dá tempo. Vem a lâmpada elétrica explicada num esquema da apostila com meia coluna destrinchando tudo. Pode ser até que esteja certo, mas acaba de matar a capacidade de descoberta do aluno que o leu.

Jefferson e Einsten, Newton e Keppler tiveram muito tempo, muitos anos de perguntas em aberto incomodando-os, de tal modo que quando eles chegavam a uma conclusão ela foi genial. E não eram a última palavra sobre o assunto. Há gênios sobreviventes do nosso sistema escolar que estão reescrevendo as leis que estes sujeitos postularam.

Enfim, cada vez que a gente pensa sobre uma coisa já pensada a gente tem que descobrir o caminho do pensamento. Você pode achar isto sem graça, mas o caso é que isto é um exercício importante. A gente não está mais dando a chance de quem está se formando de exercitar este caminho. A gente já mostra o caminho das pedras (é, aquele caminho safado que se usa para fingir que se anda sobre as águas). Isto sem imaginar que poderia haver gente que quisesse ir nadando, de boia ou de barco até a solução.

Sim, porque à humanidade vai sendo dado graus de consciência e experiência maiores a cada dia. É um crime pensar que não há mais gênios entre nós. Absolutamente! Há muitos, mas é preciso expô-los a problemas, instigá-los com perguntas ou talvez, simplesmente, deixarmos que eles não se perturbem com as nossas angústias de ensinar-lhes sobre isto e sobre aquilo e deixar que eles simplesmente descubram.

Educar seria uma alternativa para a espontaneidade. A própria natureza apresenta perguntas e perguntar-se sobre as coisas é inevitável. Somente treinamos tão mal as últimas gerações que ninguém consegue mais administrar por cinco minutos sequer a ansiedade de ter uma pergunta em aberto, de ter a expectativa de uma possibilidade, e do insuspeito, do novo.

Somos obesos por aprender rápido demais, e ao mesmo tempo flácidos, raquíticos e atrofiados na capacidade de pensar. Não adianta colocar todo mundo em esteiras e musculação. O problema tem que ser de verdade. Tem que durar o tempo que for, e tem que trazer aquela sensação de vitória pela conquista tão almejada.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.