O Barco é Seu

21 fevereiro 2013, Comentários 1

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Descobri recentemente que o que nos prende e não deixa crescer não são os nosso erros. O que nos prende é a culpa que carregamos. Curiosamente somos mais capazes de perdoar os outros do que a nós mesmos pelas faltas que cometemos. Se alguém tem 13 de miopia em cada olho, ninguém o repreende por usar óculos ou por não enxergar sem eles. É a condição daquele corpo. Se outra pessoa é muito baixa, não exigimos dela que alcance as coisas sobre o armário. Simplesmente não nos passa pela cabeça exigir algo além da capacidade que uma pessoa tem. Mas de nós mesmos nós exigimos.

Creio que isto tem a ver com uma impressão errada de quem realmente somos e quais são de fato nossas capacidades. É como querer erguer halteres de 200 kg. Você não ergue e isso não te causa problema. Mas somos de uma espécie de seres extremamente exigente. Queremos fazer tudo, qualquer coisa.

Podemos olhar da seguinte maneira para este assunto. De fato uma pessoa se exercitando bastante poderá ficar atlética, correr muitos quilômetros, levantar pesos ou ser o primeiro a chegar em corridas de bicicleta. Somos capazes de tudo, de qualquer coisa, mas precisamos de tempo e dedicação. Precisamos de exercício. Não pense só em exercícios físicos, podemos também ter muito dinheiro, conquistar posições, ser quem quisermos. Tudo vai demandar tempo.

Eu estive atada na culpa de deixar morrer um animalzinho. Remoía a hora em que ele morreu pensando em como poderia ter me adiantado e o salvado. Fui àquela cena mil vezes e dela eu voltava sempre em sobressalto, no terror da morte do bicho. Claro! O acontecimento está no passado e parece que a memória e o pensamento que são capazes de visitar o passado não têm pernas nem braços que consigam quebrar sua crosta cristalizada e modificá-lo. Eu fiz o melhor que podia para cuidar do bichinho, mas o melhor que eu podia não foi suficiente para que ele se salvasse.

Chorei demais, encolhi-me em um canto me achando a última das criaturas. Eu estava me punindo por não ser melhor do que eu era, mas não resgatava a vida do bichinho dessa maneira e nem mudava o passado em nada. Eu me apercebi, de repente que não estava trabalhando, nem cuidando de mim, da minha casa, dos meus amados. Percebi que eu tinha me rendido a força da culpa e que além de ter feito alguma coisa que me maltratava no passado eu estava permitindo que a culpa estendesse seus tentáculos e condenasse meu presente e o meu futuro.

Deitada no sofá eu me lembrei que enquanto eu ainda estava horas depois sofrendo a dor da morte do bicho, ele mesmo, fiel a sua consciência, já tinha largado a dor. A dor existe enquanto a dor existe. O que eu carregar dela na minha memória vai ser só uma reprise sujeita a minha vontade. Minha emoção pode chegar perto do que foi na hora, pode ser até maior. A frustração, o medo, o horror, mas como não estou vivendo mais aquilo, eu não vou poder fazer mais nada. A memória só pode olhar o passado pela vitrine, do lado de fora, sem acesso a ela.

A humanidade tem esta característica. Possui a memória, e isto nos torna especiais. Somos capazes de traçar planos, de prever circunstâncias pela memória de uma experiência. Mas a memória não pode ser mais que um instrumento de crescimento. Não pode se assenhorear das nossas vidas.

Também como humanos temos a capacidade de inventar novas versões para cenas do passado. E se eu dissesse isso? E se fizesse aquilo? E se eu não tivesse feito ou acontecido? É também nossa capacidade de pensar algo de precioso que permite a todos nós abandonar o que é material e alçar vôo por ideias remotas e impalpáveis. O pensamento não pode ser preso a uma cena do passado e ficar remoendo ossos secos. Isto seria indigno da nossa capacidade de pensar. Também o pensamento é ferramenta que nos pode levar além do ponto em que nós estamos.

Precisamos nos assenhorear da nossa vida e tirar as garras da culpa de cima do timão e permitir que nele ponham as mãos o perdão, o amor e a compaixão por nós mesmos. Eles também são capazes de visitar o passado. O amor por um avô morto não acaba, o perdão por um acontecimento antigo pode acontecer hoje, a compaixão pela nossa pequenez durante um tempo da vida, também.

Você é o dono do barco. Você põe no timão quem quiser.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    O remorso é um aguilhão que impede o raciocínio. A culpa toma conta do corpo emocional, que estremece e se agita com ondas altas. É o momento de afastar -se para o centro e observar a própria emoção. Não para impedi-la, mas para vê-la se esvair. Obedecendo a mesma Lei da Impermanência.