O Além, Também

28 outubro 2013, Comentários 0

umbral (1)Quem tem medo de fantasmas? Filmes de terror recontam uma ideia que mora na verdade dentro de nós: de que não podemos nos misturar com os que não estão vivos. Isto tem uma certa lógica. Nisto nós observamos regras gerais que os unem: todo mundo é dono de um corpo, todo mundo dispõe com mais ou menos eficiência de sentidos que nos dão parâmetros sobre nossas condições materiais e em grande medida também de situações imateriais que estão atreladas aos sentidos básicos. Assim somos capazes de ver e de nos equilibrar, somos capazes de ouvir e de perceber que existem indivíduos a nossa volta e várias outras sensações que nos conduzem durante a vida.

Teoricamente as pessoas todas estão sujeitas às leis da matéria – tempo e espaço: soa só quando tem matéria para o som passear, a gente anda perto da terra com a ajuda da gravidade, água escorre e fica apertada contra a terra, e tal e coisa. Todos na mesma. E isto tudo dá sempre certo – incluindo doenças, mesmo, que servem para a observação de limites nos nossos hábitos.

Os mortos são inconvenientes porque não estão como nós sujeitos a leis de tempo e espaço. Consta que tem quem se comunique com eles a toda hora, em todo lugar – elevadores, quartos, piscina. Eles não tem problemas de deslocamento ou de comunicação porque não se atrelam a necessidades físicas.

De fato não há real problema na presença dos mortos. Tm quem não se dê muito bem com a gravidade e esteja vivo e nem por isto a gente os discrimina. Por que é que a gente não acha bom a companhia dos mortos, então? Os tailandeses – e acho que outros povos da Ásia, também – fazem rituais em um dia certo quando se abrem as portas entre a terra e o ‘além’. Nestes dias as crianças têm que dormir cedo e se colocam lanternas e comida – algo que os mortos vêem e não usam, mas dizem consideram bom porque foi um tempo gasto pelos vivos com eles. Aí eles vão embora. No ocidente a coisa é mais definitiva: morreu, acabou-se. Não venha incomodar!

Os mortos trazem à mente o passado. Ninguém pensa em mortos no sentido de eles inspirarem algo de fresco, de novo, de juventude. Mortos são velhos ou são doentes ou suicidas. Morte rima com passado, com teia de aranha e decrepitude. Rima com perda, com fim, com fechamento e é por isso que a gente não quer se misturar com eles. A gente quer o que vem por aí, o que não foi inventado, o que é novo. E andar com uma pessoa que se deu tão mal a ponto de morrer chega a ser um contrasenso.

Mas alguém que tenha morrido teve um momento exatamente como o nosso na terra. Fez, como nós um processo de encarnação que teve sua própria medida de sucesso. Ninguém lembra que o sujeito veio para a Terra com as expectativas e os planos e metas como nós, que foi atrás durante toda uma vida de encontros e desencontros e que ao final tinha cumprido sua rede de relações no mundo em prol de um objetivo específico.

Os mortos somos nós, no outro hemisfério do tempo. Estamos aqui de luz acesa – pelo menos durante o dia – e nossa consciência nos acompanha no tanto que permitimos ou que exercitamos estar com ela desperta. A noite dormimos, porque ninguém é de ferro, afinal, e voltamos no dia seguinte para a batalha…

Batalha? Sim, a batalha de romper com a porta que separa o dia da noite, a porta que separa a terra do além, levar a consciência para todo o canto  a toda hora, para que consigamos viver com o que é e com o que foi e ainda com o que vai ser. Tudo no mesmo instante, com plenitude e sem medo. Para podermos conhecer o lado de cá como o lado de lá e cumprir a tarefa de seres humanos de que muitas vezes ainda nem desconfiamos.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.