Nunca está pronto!

24 maio 2014, Comentários 0

-Serenidade-Então, sei lá, você se aposenta. Quase 40 anos trabalhando – poderia ter se aposentado antes, mas tinha tanto entusiasmo! Não há nada sobre o assunto que toca teu trabalho que você não conheça. E está sozinho em casa. Houve um jantar, você viu seus netos. Havia seus amigos a sua volta, sua mulher ou marido.

Ou então, não neste ponto. Antes, talvez. Talvez ainda faltem 10 anos a frente no seu trabalho. Talvez você ainda esteja elaborando e sente-se vazio. Sente-se uma fraude. Sente-se sem razão.

Mas você está bem. Está saudável. Seja qual for o ponto, de fato você não está pronto. Não há nada pronto! Mas que falta? Sei lá, já criou os filhos, enterrou os pais. Parece que toda a dor e o prazer você já experimentou. Mas o que falta ainda?

Não era então somente estudar ou trabalhar ou ter a excelência na sua área? Não era criar os filhos, ir até o fim com os pais, seguir com o casamento? Não era nada disso? Tem um vácuo, um espaço em branco, linhas por escrever ainda.

O exercício de todas as coisas, de cada coisa, aliás, foi um modo de se conhecer, de se conter, de se descobrir. Hoje você não é mais criança. Não se assusta com as pessoas, não tem medo de escuro. Mas resta um medo, resta um susto. Parece que de agora para diante há uma descida. Até quando?

Agora é esperar pela morte?

Você está sozinho. Você está sentado e olha para a frente. Na verdade ainda falta um tempo. Ainda resta um corpo. Ainda há onde ir. Nem todas as pessoas você conheceu, nem todos os livros você leu, não, você não conheceu todos que você poderia ter conhecido.

Ainda resta atravessar a rua. Ainda resta atravessar o mundo.

Precisa agora mergulhar na sua “Fossa das Marianas’ – no abismo mais fundo, e ainda procurar-lhe um buraco e lá penetrar. É preciso ir mais fundo, é preciso sentir seu frio, é preciso estar rodeado da sua escuridão.

Para quê? Para conhecer o avesso, a origem, a fonte do seu universo. Para saber como é que você inventou este caminho, de onde você tirou as pessoas que te cercam e porquê.

Para achar o mapa onde está o sentido de novo. Por que brincava só? Por que você namorou quem namorou? Por que você era tão ruim com o seu pai? Por que você não quis continuar o primeiro curso? Por que você viajou para longe? Por que insistiu no que sentia que não prestava? Por quê?

Por que levou tanto tempo para fazer coisas tão simples? Por que lhe veio este filho? Por que você desanimou no meio do caminho? Por que você amava tanto este companheiro e depois o abandonou, ou a companheira?

E olhar de novo para fora não traz mais o mesmo impulso. É vazio. Não há mais nada lá fora que te chame. Agora há este espaço inteiro dentro por ser descoberto.

Há muitas perguntas. É preciso fazer um desenho, achar uma coerência, descobrir os motivos para os seus desejos. É preciso saber.

E depois é mochila nas costas de novo, de novo você está conhecendo um terreno novo, uma ideia nova. De novo o mundo se apresenta fresco e você vai poder querer o que não pode e fazer o que não deve. E neste momento você já olha com alegria para o caminho, de agora para diante não é mais obscuro, embora sempre gere uma apreensão, uma surpresa.

De agora para diante você está no caminho de retorno. Não, não. Você não está sozinho. Você é todo mundo. Pode encontrar qualquer um aí dentro. Você é agora a humanidade inteira dando passos de liberdade.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.