Nova Indentidade

3 dezembro 2014, Comentários 0

crisálidaHoje em dia existe uma polarização bem grande quanto a vivências de passagem. Muitos são religiosos, outros absolutamente, não. Estas vivências se referem, por exemplo, a isso de as pessoas organizarem um casamento na igreja, com padre e tudo, outras quererem a ‘extrema unção’, ou ainda existir aquele ritual de batismo. Há outras. Tem gente que fala de ‘ritos de passagem’, outros de ‘iniciação’, e por aí vai.

O caso é que sempre a gente vai ter que passar por um momento especial, alguma coisa extraordinária que vai fazer … bom, que a gente espera que tenha algum efeito na nossa vida. Mas qual?

Batizamos para nos convencer de que somos parte de algo, que temos um laço com uma realidade diferente, que passamos de um momento de alheamento a um momento de união, de pertencimento. Queremos nos sentir parte do ‘seleto grupo’.

‘Seleto grupo’? Seleto por quem?

Bom, batizar é passar do estado dos ‘de fora’ para os ‘de dentro’. De dentro da crença, de dentro da ideia. Tem batismos de todo tipo.

Casamento é um pouco mais interessante, talvez. Casamento as pessoas anunciam para o grupo a que pertencem sua união e querem que haja uma bênção coletiva.

‘Extrema unção’ é muito interessante, porque a pessoa vai se desprender daquilo que perturba para passar para um outro momento. Que ninguém lembra de fato, que a gente desconfia, mas não tem certeza.

‘Ritos de passagem’ são determinados nas culturas – passagem como um batismo: passa para um outro estágio, para um outro momento, para um outro grupo. Abandona o anterior.

E ‘Iniciações’, também, é um passar de um estado de não poder conhecer para um de poder conhecer.

Enfim, todos estes processos tem a ver com ser parte de algo e abandonar um estado anterior – de não pertencimento, de incapacidade, de incapacidade.

“Somente os iniciados conhecerão a verdade”!

Sério?

Mas olhando a nossa vida. Esta corriqueira e ordinária de todos os dias, nos deparamos com uma surpresa presente na vida de todo mundo: todos passamos por ‘iniciações’. Literalmente vamos atrás delas e com tanto afinco que ma podemos acreditar.

Pensem o quanto de treino que empenha uma criança em andar sozinha? (ignoramos os fantásticos momentos ‘conquista’ anteriores de rolar, sentar, etc) Quantos desafiantes ‘não’ cada um de nós é capaz de pronunciar sob pena da reprovação dos mais velhos e em desafio real a toda a autoridade de que dependemos? Tudo para provar um limite: uma ‘iniciação’!

Mas isso há todos os dias: os desafios do corpo que tem que ser treinado no seu equilíbrio e nas suas capacidades motoras. Cada vez que dizemos: ‘eu consegui!’ É uma passagem após um treinamento fiel e incansável.

Mais tarde, andar de bicicleta, pular corda, dar o primeiro beijo, o primeiro amor, a escola, o primeiro emprego – tudo se segue em conquistas:  deixa-se um estado para se pertencer a outro. Somos iniciados.

Como podemos nos admirar de nos sentirmos diferentes quando temos diante de nós um filho? Como imaginar que diante de uma mudança radical de posição no mundo nós nos tornemos outra pessoa absolutamente? A responsabilidade jamais adivinhada anteriormente, o amor, nunca sentido tão intensamente, tão absolutamente!

E cada doença que nos convida a olhar nos nossos próprios olhos marcados pelas olheiras, perceber a nossa face magra e pálida, a temperatura alta, o esvaziamento da vontade, o eco que pergunta ‘que caminho me trouxe aqui?’ e ‘que caminho me tirará deste estado?’. Outro convite para um novo estado de consciência, maior, mais abrangente, mais amplo.

E nós nos levamos até este momento que pede uma virada: uma iniciação, um processo que te tire do estado de consciência anterior e te leve para uma compreensão maior, para um agir mais conveniente que só é capaz quem passou por este ‘ritual’.

A partir de então, você não é mais o você antigo. Agora você assume uma nova identidade. Somos todo o tempo, no curso de nossas vidas, lagartas tecendo crisálidas, borboletas dormindo em crisálidas, aguardando sempre novos estados de ser. Uma vez maduros nós mesmos iniciaremos o processo de mudança. Nós somos quem vai nos selecionar. E sairemos voando, cada vez mais longe e alto.crisálida

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.