Nova Abordagem

28 fevereiro 2014, Comentários 0

ratãoSabe aquelas experiências com ratinhos em que os pesquisadores largam um ratinho em um labirinto e ele tem que achar a comida. Tem também a versão da alavanca na qual o rato não espera que deem a comida para ele, mas baixa a alavanca cada vez que quer comer. Assim o rato fica no costume de refazer sempre o caminho, ir ao mesmo lugar, baixar sempre a alavanca. E como tudo nesta vida se acomoda, não seria o rato a inaugurar algo novo, e ele repete e repete aquele mesmo gesto.

Pois é, me achei rata de repente! Eu que me tinha na conta de uma pessoa animada, sanguínea, beirando a volubilidade, me achei rata acostumada a baixar a alavanca. Que humilhação! Sou destas pessoas que gostam de descobrir caminhos novos para chegar ao mesmo lugar. As vezes me perco, confesso. Mas não tem alegria maior do que ir aos poucos reconhecendo ruas, dar de cara com uma igreja, uma farmácia, uma pracinha que te mostram de novo a direção. E chegar, então! É o que há de bom.

E não só para passear, gosto de fazer as coisas conforme elas me chegam às mãos. Até pendurar roupa, por exemplo. Nunca repito o processo de novo: uma hora ponho a máquina para funcionar antes de pegar a roupa já com sabão dentro, daí venho da lavanderia para pegar a roupa suja dentro de casa e a ponho na máquina. Antes de bater e enxaguar eu ponho o varal. Outras vezes ponho o varal, pego a roupa e soco na máquina para encher com o sabão por cima e assim vai, conforme o local da casa que eu estou, conforme o vento, a inspiração, sei lá. Acho bom variar. Acho que é isso que me salva da rotina.

E para escrever, também, ora deixo que as coisas me provoquem ora sento em frente ao computador e me dou uma ordem: ‘escreva!’ Ora tenho uma inspiração antiga que me incomoda e as vezes amadurece para ser registrada. Tudo assim, sem muita premeditação miúda. Só grandes mapas, só tarefas amplas. Nada de ‘isto a esquerda e isto a direita’, nada de regras muito rígidas, porque eu me acho já rígida demais, não precisa ainda por cima de andar de armadura.

E eis que eu me percebo tal qual uma rata feliz repetindo a descida da alavanca sem a menor vergonha.

Mas a Providência está a meu favor – pelo menos assim eu interpretei. É que vim fazer um trabalho igual a muitos que eu tinha feito no computador e o bendito do programa não apresentava como usualmente a possibilidade de eu completar mecanicamente e da mesma maneira – com a alavanca, eu vejo agora! – o que eu pretendia fazer.

Fiquei muito chateada. Ora, eu tinha tão pouco tempo e teria que aprender como fazer tudo de novo! Que coisa cansativa, inconveniente, sei lá o que mais eu poderia dizer daquilo. Mas eu tinha me determinado a cumprir aquela tarefa naquele dia, e àquela hora. Respirei, sentei com mais atenção diante do computador e fiz aquilo que a gente sempre faz quando conhece um programa novo: fuça.

Onde é que se formata texto? Onde é que se insere imagem? Onde é que se trabalha a imagem? Quando pensava que tinha entendido o caminho realizava uma ação que desfazia ou estragava a anterior. Grrrrrrrrrrrr!

Mas eu tinha que fazer o que tinha me proposto a fazer. Fui adaptando conforme o programa me permitia todas as minhas necessidades, uma após a outra, observando que ficariam muito diferentes do usual, mas estariam passíveis de serem acessadas por outros usuários.

Viva! Consegui. Ficou meio ‘Frankenstein’, mas eu consegui. Dias depois recebo dezenas de elogios pela nova formatação. Com isso a rata não contava! Uma nova abordagem pode trazer sobremesa.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.