Nós esfera

11 setembro 2013, Comentários 0

filosofia rosto2Até um certo tempo da nossa vida a gente está se construindo. Vamos montando uma personagem para nossas manobras na vida. Fazendo uma montagem que nos agrade e que achamos que vai ser eficiente no mundo. “É assim que as pessoas devem ser. É assim que as pessoas devem me ver. É isto que se espera de mim. É isto que me cabe ser.”

Talvez este movimento seja mesmo anterior ao nosso nascimento. Talvez seja uma seleção condicionada por fatores anteriores a nossa consciência terrena. Com certeza entram aí o recorte genético: um ianomami não vai partir das formas de uma loira magra e alta – recorte certamente escolhido; também o recorte cultural: um coreano criado nos Estados Unidos reformou já muitos parâmetros de olhar para o mundo; e tem o recorte do meio, da família, dos encontros e por aí vai, em infinitas possibilidades.

De qualquer maneira, precisamos admitir que construímos uma forma e uma aparência a partir de um arcabouço, de um baú, de uma fonte que está sob nosso domínio. A parte de nós que externamos na máscara, na personagem, virá a luz dos holofotes. Vai ser vista a vida toda – por nós, pelos outros. Mas há uma parte nas coxias, há uma parte na iluminação, há uma parte na sonoplastia e tudo isto está às escuras, no não aparecer.

Que somos nós que ficamos fora dos holofotes? Que limites nos impusemos quando colocamos estas roupas de cena e escolhemos esta música de fundo? Há de nós um avesso do outro lado do palco, também. O que não somos sob a luz. Aquilo que nos acompanha calado e passivo, que é movimento não realizado. Quem está sentado nos olhando no palco? Quem de nós escolhe a parte a ser mostrada?

Isto que de nós escolhe a parte mostrada guarda a outra para fora na ausência da luz. Aquele espaço que a luz não alcança é nossa existência – ignorada. Precisamos reconhecer que não somos o que está iluminado, somente. Nem somos aquilo que não está iluminado.

Se temos um arcabouço de todas as possibilidades e, por coerência talvez, talvez por medo, escolhemos partes somente, temos que admitir que somos isto que acreditamos que somos e ainda mais tudo o que está no avesso do que escolhemos, mas que também existe em forma contida e gesto não realizado. Somos potencialmente um inteiro, um universo que se realiza nas nossas decisões de expor e guardar.

Mas as vezes ‘a gente vira de costas’ para as nossas escolhas. De repente vamos ‘tomar um cafezinho e fumar um cigarro na rua’ e deixamos lá dentro todo mundo livre. De repente o que está iluminado deixa os outros entrarem em cena também. Aparecem ideias e emoções descabidas para o personagem de sempre. Mas o que está aparecendo? De onde vem esta força, ou nos assusta um ‘mal’ que nunca aparecia, mas que salta fora como uma mola esmagada?

Desconfio que sejamos nós, sempre. Quem escolhe, quem aparece, quem esconde somos nós. E por mais que aquilo que esteja escondido nos pareça estranho e alheio, por mais que nos pareça impossível, dentro do nosso arcabouço poderíamos formar centenas de personagens, centenas de imagens luminosas visíveis que teriam por trás tudo o que  não é visível e que continua potencial no avesso das escolhas.

Se podemos concordar que existe o resto de nós dentro de uma esfera, de um arcabouço de possibilidades infinitas, cabe aí uma reflexão interessante: deixamos de ser justos e bons porque dentro de nós existe um avesso para a justiça e para a bondade? Podemos pensar que deixamos de ser negros ou asiáticos quando nossa escolha foi ser um indígena, mas isto exclui o que é ser negro e asiático? O limite, me parece, é uma ‘solução com fins didáticos’, uma seleção para resolver um momento da nossa existência. Talvez isto resolvesse em nós os nossos problemas com as diferenças no mundo.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.