No outro prato

30 setembro 2013, Comentários 0

balancaPrecisamos lutar. Precisamos combater o que nasce das nossas próprias entranhas e vaza em ações tortas no mundo. Precisamos conter as forças podres que emergem da nossa vontade estragada e indisciplinada. Levamos a vida displicentemente e não damos bola para os impulsos baixos ‘que são tão raros afinal’…

Olhamo-nos como pessoas boas: nós não matamos, nem roubamos. Nós somos comedidos, não usamos palavras rudes, pagamos o aluguel no dia certo. Nós raramente mentimos – somente quando é necessário e apenas mentiras sem consequência. Nós permitimos que as pessoas façam o que querem e não interferimos nas suas vidas. A liberdade é para todos.

Sim, é uma pena que haja a guerra, a pobreza e a escravidão. De qualquer modo, a gente nunca se envolveu com isso. Graças a Deus moramos em um país que não faz guerra. Somos amorosos com os animais, gostamos de todo mundo. Não devemos exagerar.

São doidos os que comem orgânicos ‘para não poluir a Terra’. Ora, quem planta é que tem responsabilidade nisso! Não precisamos deixar de usar algumas marcas porque elas usam trabalho escravo na Ásia – se fosse só na Ásia! Não existe uma polícia que cuide disso? Nem somos nós que desviamos a comida dos famintos – meu modesto bife com batatas não tem nada a ver com a fome do outro lado do mundo. Ou tem?

De repente estamos cercados por gente a dizer que a carne que comemos consome a cada quilo 50 mil litros de água potável. Que destrói florestas para abrigar pasto, que destrói rios por assoreamento, que abate cardumes imensos para alimentar o gado, que transforma amorosos bichos vegetarianos em consumidores de ração com fórmulas monstruosas. Mas que peso horrível este! Melhor não lembrar porque isto chega a tirar o apetite.

Porque nós não podemos usar aquelas lindas calças jeans? Porque não podemos usar as camisas e os sapatos que vem com estas etiquetas de tão longe? Afinal, e o emprego, como é que fica o emprego se a gente deixar de usar os produtos dessas empresas que contratam milhares de ‘trabalhadores’?

Que raio de gente que fala para cortar o refrigerante porque tem veneno, porque tem açúcar, blá blá, blá blá! Porque tal lanchonete vende comida doente, porque isto e porque aquilo. Que cansaço que não podemos nem escovar os dentes com a pasta porque está cheia de adoçante e flúor e não sei o que mais que faz mal para os neurônios. Parece que a gente está cercada!

Ai, deem um descanso. Eu quero só ir ao supermercado e comprar o bastante pra semana. E lá tem tudo e nós podemos por no porta-malas e estará tudo bem. Deixem-nos em paz por conta do nosso carro e do nosso computador! Nós não somos responsáveis por toda a desgraça do mundo. Que lástima as pessoas terem que viver sem conforto. Nós só queremos assistir à novela e ir dormir. Parem de buzinar no nosso ouvido que somos mais um que ajuda o sistema a ser como é. Deixem-nos em paz!

Mas já é impossível mascar um chicletes sem lembrar de tudo isso. Sim, e é mesmo a gente que tem que se colocar. A gente que tem que mover o peso de uma bigorna todos os dias de cima das nossas costas e saber que se está, sim, alimentando um sistema injusto e desequilibrado, que não existe assistir o seu programa quentinho de baixo do cobertor no sofá olhando para a televisão, não dá para você esquecer o peso do mundo. Se você está vivo hoje, você é a chave para fazer o mundo girar para o lado certo. Se não, você está no prato errado da balança, pesando com a pedra escura e ajudando o dragão.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.