Nem tanto ao mar

20 março 2013, Comentários 1

infinity_lemniscataPassei a vida acreditando que eu devia amar mais as pessoas, compadecer-me das suas misérias, carregá-las pela mão, conduzi-las a lugares melhores, acalentá-las. A lição oculta no exemplo de vida dos meus pais foi sempre esta. E minha interpretação pessoal foi de que sempre eu seria a última da fila para me dedicar ou para atender.

Pois é, infelizmente a minha tendência pessoal sempre foi a de pensar nos outros antes. Eu poderia ter dispensado a lição dos meus pais. E como sempre existiram e existirão incontáveis outros, e cada um desses outros terão um rosário inacabável de carências, a minha vez na fila para ganhar atenção nunca chegou.

No entanto, esta minha vida de Madre Teresa que você pode imaginar não resultou, como se esperaria, como uma grande vantagem para quem quer que estivesse ao meu redor no correr dos anos. Ora, as pessoas que tinham pedras nos sapatos se sentiam momentaneamente agradecidas por eu lhes livrar do incômodo. Tirei milhares de pedras eu mesma caminhando com algumas dentro dos meus próprios sapatos, mas sem parar para tirá-las.

Mas é preciso envelhecer em certas práticas para poder avaliá-las depois. Há aí três aspectos a considerar: Primeiro, que o ser humano tem como hábito cultivar os sofrimentos. pode parecer uma estultice dizer algo como isso, mas sim, mesmo que viesse o mais poderoso guru, o melhor dos pajés, o santo mais capaz da livração e tocasse qualquer um de nós e nós nos sentíssemos libertados e sãos, pouco depois sentiríamos um buraco no lugar do incômodo. Sentiríamos que em nossos pés está faltando alguma coisa, e escolheríamos uma nova pedrinha para compensar a sensação da falta.

A figura talvez não seja das melhores, mas imagine uma mãe que reclame do adolescente chato que não arruma o quarto, que discute com o novo marido dela, que mata aula, que reprova na escola, cujas roupas vivem sujas, que não corta o cabelo, etc, etc. Passa anos numa perseguição sem fim. Claro que o guri cresce, acha uma moça e vai casar com ela. Esta mesma mãe que se incomodava até o último com o guri vai ficar incomodando a nora pelo resto dos seus dias afirmando que ela não arruma a casa direito, que não dá de comer o que o pobre e sofrido filho dela precisa, que não cuida do rapaz.

É sempre assim. Um namorado errado – não vou nem me dar o trabalho de considerar nada sobre ‘errado’ – vai sair da vida de uma moça e ela vai achar uma fieira de outros namorados errados, porque não está neles o problema, mas nela.

Minha segunda conclusão é que não é pelo sofrimento das pessoas que a gente as auxilia, mas porque damos a elas a oportunidade de sentir que a vida pode ter outras cores, outros sabores e formas. Enfim, que não é preciso fazer a fila dos namorados errados, mas que se pode olhar com mais consciência para o que se está vivendo e construir melhores relações. Também a minha relação com esta fieira de sofrimentos alheios precisa mudar, afinal!

Terceiro, e talvez mais fundamental do que todas as outras coisas, é que eu só vivia metade da minha vida. Eram dias sem noites, claros sem escuros, nascer do sol sem ele nunca se por, dar sem nunca experimentar receber. E esta segunda metade da vida da gente dá a oportunidade de que nos sintamos os filhos mais novos, o irmão menor, a parte necessitada. Permite para nós que experimentemos sermos auxiliados por outros irmãos que precisaremos reconhecer maiores que nós, porque sabem receber nosso auxílio, e dar de volta conforto.

Trabalho agora para cultivar em mim a capacidade de receber, de agradecer, de ser acolhida confortável e alegremente.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    Sempre é mais fácil dar que receber. Dar significa sou forte, tenho de sobra. Receber requer reconhecer fraquezas e carências.