Nasci de novo, mas com backup

24 agosto 2013, Comentários 0

happy-newborn-130506Temos colocado todo o nosso trabalho dentro de uma ‘gaveta’ virtual. Tudo o que produzimos desde fevereiro em uma ‘núvem’. E cabe muito na núvem. Coube tudo, até ontem. De repente o dono da gaveta, ou melhor, do armário onde estava nossa gaveta parou de trabalhar – por duas horas e… perdemos tudo. ‘Tudo de tudo?’ – eu perguntei. A falta de resposta me deu um arrepio. Não tínhamos nem noção se poderíamos recuperar qualquer coisa. Agora era confiar em um dia de trabalho de um só para ver se conseguiríamos ter alguma coisa de volta ou, talvez, não conseguíssemos nada.

Eu fiquei calada. Não fiquei triste. Fiz uma avaliação. Eu não sentia nada além de um vazio e, prestando atenção, vi que o vazio estava cheio de alguma coisa que não era ruim. Era cheio do que não exisita ainda, das coisas por fazer, do devir. Percebi que o vazio da perda era um vazio cheio de promessas novas, de limpeza, um nada potente. Pareceu-me que eu estava nascendo de novo.

Aí eu percebi alguma coisa melhor ainda: isto sempre me acontece! As mais duras bordoadas que andei levando na minha vida e que me tiraram do centro completamente me deram esta oportunidade. Diante do nada não há mais peso, não há mais julgamento ou memória, não há mais crítica ou elogio, nada de bom ou de mal resta. Nada! Os textos que eu quis não ter publicado, os textos brilhantes, os projetos, os registros, as imagens, estava tudo desaparecido – e isto era ótimo.

Queria poder ter esta sensação sempre – de conseguir olhar todas as possibilidades, todas as perspectivas, tudo o que pode acontecer no futuro, simplesmente por decidir de uma hora para outra. Estar novo. Comparo esta sensação assim rejuvenecedora a repetição do nascer de todos os dias e, ao mesmo tempo e em contraste, ao desespero suicida. Mesmo o suicídio das pessoas que não se matam com faca, corda, veneno ou arma de fogo, mesmo daquelas que vão se matando porque escolhem sofrer irremediavelmente de uma doença que lhes suprime um terço ou metade da vida. As que vão fazer uma amputação e lamentar a falta de um membro. Tudo porque isto lhes afasta das pessoas que elas amam, mas com as quais tiveram entraves.

Eu conheço tanta gente assim. Gente que se suicida aos pouquinhos ou amputa partes de si pela vida por falta de coragem de olhar para aquele lado, e a falta da parte dói menos do que lidar com a vergonha, com a culpa ou com o arrependimento. A falta de uma parte de si é uma compensação possível em comparação com o enfrentamento do orgulho devastador! Eu vejo isto em mim e nas pessoas. As vezes a gente reconhece que amputou uma parte de si, mas isto não devia ser nunca a escolha. Isto está sempre apoiado na vergonha ou no orgulho, e eles não deviam nunca ser parâmetro para nada. Só enganam e desviam a gente do caminho.

Eu sou pela vida nova todos os dias. Sou a favor de despertar todos os dias e de se decidir que pode tudo – porque no fim a gente pode mesmo, e simplesmente decide todos os dias estar com a família, as contas, as dívidas, as promessas, tudo sempre o mesmo, simplesmente porque a gente se compromete. Mas tudo é leve. Tirando a vergonha e o orgulho de novo você nasce. Não pense no que os outros vão dizer sobre o que você fez ou deixou de fazer. A gente mesmo se encarcera em exigência e crítica. Se a gente falhar – e a gente com certeza, repetidamente vai falhar – não precisaríamos perder tudo da memória como nós perdemos ontem, não precisaríamos apagar os arquivos, ou de amnésia. Precisaria só de coragem e humildade, e de cara limpa para poder seguir.

No fim, após um dia de trabalho foi tudo foi recuperado. Não perdemos nada de fato, mas eu quero continuar com a sensação de nascer de novo, mesmo com backup.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.