Nascer Marta

7 maio 2013, Comentários 0

Jean-Francois-Millet-A-Farmer_s-wife-sweepingEstou muito convencida que a gente não aparece na terra uma vez somente. Mas isto não tem tanta importância para mim. Acho interessante que as pessoas se dividam entre as que se preocupam com sua origem e outras coisas transcendentais e outras somente com o rame-rame da vida diária.

Eu acho que vim com um dispositivo faltando para esta vida. Não caibo no grupo que busca dinheiro para bancar a vida nem no outro que se pergunta as transcendentalidades. Não posso parar para me dedicar a isso. Minha visão é curta. Minha capacidade de compreensão é limitada e meu alcance como ser humano também.

O que eu vejo? A gente, o mundo. Nossa imensa ignorância ou infantilidade. Nossa fragilidade. Enfim, acho que nasci com um senso de praticidade exagerado. Não posso ver a infelicidade no mundo e ficar pensando ainda ‘qual a minha missão na vida’. É preciso dar conforto, chance para que as pessoas sejam felizes, se realizem, tenham oportunidade de se descobrir. Não, não sou eu quem vai proibi-las de pesquisar para que vieram, mas não posso deixar que elas fiquem sofrendo.

Se encontro uma criança, penso que ela tem que se preservada de poluição, de ser encoberta pelas ansiedades e vontades dos mais velhos que olham para ela como se ela pudesse aplacar todas as coisas ruins que os antigos fizeram. O pior é que queremos por nos trilhos que fizemos as crianças que estão chegando. Esperamos que nossos trilhos que nos trouxeram até aqui levem as crianças a algum outro lugar que não a este mesmo!

Se com um velho eu acho que tem que ser confortado, e ouvido – acho que as pessoas precisam dar o seu testemunho da vida, porque na verdade é tão bom para quem fala como para quem ouve. É como se fôssemos capazes de ouvir nossa própria voz caso tomássemos os mesmos caminhos que eles tomaram. E não se engane: vivemos a mesma vida, temos os mesmos filhos, vivemos as mesmas catástrofes e temos as mesmas experiências que qualquer outro ser humano. Mesmo aquele mais distante que mora na lapônia e que você considera estranhíssimo. Ele é o mesmo ser humano que você é. Um humano idoso é uma joia. Ele te conta de um possível futuro seu.

Se é um igual a você só dá para pesquisar junto. A vida está pelo meio – ou em algum momento que não é propriamente o começo nem é o fim definitivo.

E diante das pessoas que estão a nossa volta há tanto a ser feito. Porque assim como a desdita é comum entre os seres humanos, a bem-aventurança também é. E saber disso e poder compartilhar com as pessoas e dar a oportunidade desta percepção é fundamental para mim. É urgente! Não consigo parar e me perguntar contemplativamente: ‘De onde vim? Para onde vou? Qual a minha missão?’

Para mim as coisas são práticas a ponto de eu pensar que a minha missão é permitir que a pessoa que me aparece pela frente fique bem – bem consigo mesma. Não pensando se o casamento dela lhe faz bem ou não, se os filhos, os vizinhos, a escola, a profissão, etc. Ela precisa estar feliz, somente, em si mesma. De onde vim e para onde vou? Ora, estou aqui pela eternidade – e sem lugar preciso.

Eu fico bastante incomodada com as pessoas quando elas se colocam as tais perguntas sem se mexer, sem compromisso com nada mais. Mas o que você está fazendo no meio desta sopa que é este universo? Você está já está satisfeito com o mundo como ele está? Existe alguma coisa que se possa fazer para que ele fique como você o quer? E é preciso mover as coisas para que elas tomem o prumo que você deseja? Então, você o move com a sua vontade expressa nos músculos? Você o move com a sua vontade expressa nos seus pensamentos? Você o move com a sua palavra? Com uma prece? Com um abraço?

Eu sugiro que, enquanto não respondemos às tais inquietantes perguntas, a gente arregace as mangas e trabalhe.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.