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22 julho 2013, Comentários 0

Foto: NILTON FUKUDA/AEExiste uma tendência geral à acumulação, já reparou? A imagem melhor que eu já vi para a acumulação é aquela de uma mulher  catando coisas interessantes no lixo. Ela vai colocando em um saco e o saco enche e se enche e ela mal pode aguentar seu peso. Acho que isto resume tudo. Bom, quase todas as coisas são interessantes, mas elas precisam ser úteis agora para serem dignas de serem carregadas. Esta é minha teoria.

Pode olhar para todas as coisas que te rodeiam. Nem precisa ser purista, pense na televisão. Se você a assiste todos os dias, vale ter uma televisão. Se a assiste três vezes por semana, vale ter uma televisão. Mas pense bem, se é menos frequente que isto, para quê? Não dá para assistir o que quer que você esteja vendo na tv em seu computador? Não dá para ir na casa da sua mãe? Não dá para assistir no boteco, na vizinha? Tudo bem, chegamos a um ponto crítico: a individualidade e a liberdade. Eu também não gostaria de frequentar a casa do vizinho pela televisão. Mas se a bendita tv não é usada, para quê mantê-la aí?

E é assim que fazemos com roupas, sapatos, móveis, livros, brinquedos, com tudo. Tomamos nas mãos um saco e vamos guardando o que nos aparece pela frente na nossa caminhada porque “é tão bonito que dá pena por fora!” “fulano logo vai ter crescido e em dois anos vai poder usar”, e assim, mais uma vez você coloca alguma coisa dentro do saco – e vai ter que carregar.

Está bem, você têm três filhos ou coleciona aparelhos de rádio a pilha. É válido. Ruim é se a gente for escravo da acumulação. A vida fica dificil: a casa fica menor, o tempo fica menor, o novo fica menor.

De fato se a gente precisa ter um quartinho de depósito e não é uma oficina produtiva de materiais: de costura, de marcenaria, de brinquedos, enfim, você não tem um quartinho, você tem um saco pesado e poeirento que tira do espaço da sua casa 2 metros quadrados, 4, 6… Quem curte fazer tricô sabe bem o que é encontrar vários rolinhos de lã poupados durante anos e fazer uma colcha colorida e bonita. Ah, mas aí virou trabalho.

Seu tempo também fica menor se você está guardando muita coisa: a poeira se acumula, o cupim rói, a traça come, a ferrugem desintegra. É a Graça Divina nos ajudando a nos livrar da acumulação! Mas se você quer continuar mantendo aquela cadeira de balanço do seu avô do mesmo jeito que chegou, bom, vá tirar pó e passar um óleo de peroba nela. São dez minutos do seu dia. Você escolhe de quantas cadeiras quer cuidar.

E no fim, se você quer que a vida seja diferente, que as cores mudem, que o clima mude, que o humor mude, não dá para você querer vestir o mundo do mesmo jeito por gerações. Como é que disse o Einstein? ‘Burrice é querer diferentes resultados fazendo sempre a mesma coisa.’ Mas não é?

Mas você é franciscano: “só tenho o que me cobre o corpo.” Muito lindo. Agora sozinho examine quanto de impalpável você está acumulando. Estas certezas, estes pensamentos, a memória de seus ‘bons feitos’. Sugiro que largue também. Isto não parece, mas pesa.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.