Mude!

2 julho 2013, Comentários 0

amizadeSabe quando uma criança pequena chora porque você dá limite? “Devolva para o seu amigo.” Você diz e a criança abre o berreiro. Fica ali no seu pé pedindo de volta: ‘Deixa eu ficar com o brinquedo para mim? Deixa, mãe?’ Bom, dar limite tem este segundo tempo – o da persistência. Sabe quando, mais tarde, lá pelos 13 anos o guri fica reclamando que queria ir a casa de um amigo e você não leva? Ele fala em tom revoltado que você não colabora, que você vive para acabar com a felicidade dele, que ele vai acabar não tendo amigos e a culpa toda é sua? Não lembra nada parecido? Lembre então daquelas vezes que você queria comprar uma roupa cara demais para o orçamento familiar e a sua mãe lhe presenteou apenas com um sonoro ‘não’ e você ficou por muito tempo de bico. Ou quando não te deixaram namorar aquele rapaz ‘só porque’ ele tinha vinte anos mais que você. Bom, é importante esta perspectiva na nossa adolescência. Quem neste ponto precisa tomar as decisões?

Mas depois de um tempo você descobre que pode ir onde bem entender, que pode comprar o que quiser e namorar qualquer pessoa. Crianças e adolescentes dependem da administração parcial ou total da vida pelos seus pais, ou quem esteja com esta tarefa. Quando se chega ao status de ‘gente grande’ a gente ganha a atribuição de dono do próprio nariz. E este status significa que tudo o que você fizer é problema seu. Assim que a gente casa aos 20 com um cara de 40 que tem dois casamentos desfeitos, três filhos, não tem emprego fixo e a gente nem pode culpar os nossos pais. Ou entra no curso da engenharia mais lascada para fazer porque dá uma grana alta, mas você nem gosta. No entanto, você escolheu, você cuida dos resultados.

Enfim, depois que a gente é adulto, a gente está aí para fazer escolhas, observar resultados e construir um caminho sempre melhor. Na conta geral você vive 80 anos de tentativas cada vez mais acertadas e erros sempre menos frequentes. Tem que ter um pouco de paciência e colhem-se bons frutos.

O caso é que tem gente que não sai da adolescência. Que fica o resto da vida reclamando, mas as escolhas quem fez foi a própria pessoa! E a gente é desse jeito: eu fui atacado, eu fui injustiçado, eu fui traído! Bom, se isto aconteceu, saia deste caminho e escolha outro. Mas há gente que escolhe o mesmo erro por tantas vezes quanto o tempo permitir. Sabe aquele sujeito que está casado com a quinta moça bonita sem perceber que é infeliz e que elas só ficam com ele por conta da sua fama ou dinheiro? Sabe aquela mulher que colocou silicone, vive decotada e sofre assédio? Sabe aquele casal que bebe exageradamente e se surpreende porque descobrem que o filho se droga? Pois é.

Depois de passar uns anos fazendo este caminho a gente procura os culpados: “são os tempos atuais”, “mulher não presta,” “o mundo é machista,” “a mídia é terrível” etc etc. Como negar? De fato há interesseiras, existe machismo, a mídia é safada. Mas há uma parte da nossa responsabilidade como adultos nisso tudo. Nós plantamos e colhemos. Invariavelmente é assim. No entanto, para toda uma primeira escolha pode haver desistência, revisão, ajustes. Ninguém está absolutamente condenado a fazer nada nesta vida. Ninguém.

Agora olhe para o lado, para os seus filhos, para o seu chefe, para a sua vizinha. Qualquer um deles pode se levantar dali neste instante e romper com a sua expectativa de ser ou fazer as coisas que você imagina que seriam ou fariam. E você também pode! Afinal toda a relação que você construiu com eles até agora não passou de fruto de um investimento seu. Foi uma porção de escolhas empilhadas em cima de oportunidades da sua vida. Portanto: pare de reclamar de tudo e saia daí. E isto nem precisa ser assim brutalmente. Sente-se, olhe para tudo e escolha o que fica e o que você não quer mais repetir.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.