A Mordida

31 dezembro 2013, Comentários 0

ouroborosSabe aquela imagem da eternidade que é a cobra mordendo o próprio rabo? Pois estamos no momento da mordida. Lá vem mais um ciclo! Vem o ‘tudo de novo’, e sempre no meio tem essa lombada. Vamos aproveitar a lombada!

É, não é um anel sem relevo, não é algo sem vida. A eternidade é representada pela serpente que morde o próprio rabo – está viva! E alguma coisa vem depois. Acontece alguma coisa depois desta mordida. Não vai permanecer do jeito que está. E isto se repete em ciclos novos de evolução que a gente, talvez muito suavemente, percebe na passagem do ano.

A grande serpente é lisa, rápida, veloz, seria estranho dizer, mas ela ‘desliza’ veloz para sempre. Flui sem freio para adiante e não há o que a segure. Acho que a pele da serpente é feita da tecelagem da nossa vida durante o ano que se enrola sobre si mesma e ganha vida.

Lembre do seu último aniversário, do último réveillon, do último casamento a que foi, da última festa. E olhe ainda para os dias que se foram sem realizações particulares, sem marcas maiores para aparecer aos seus olhos. O almoço do domingo passado, o café da manhã na quarta-feira anterior. Vão mergulhando na poeira leve do esquecimento, mas deixam sempre um aroma, um som – tecitura – e a textura.

Antes da festa da noite, antes de ver o quê se vai comer. Fuja e reserve uns minutos – não para lembrar, mas para sentir na ponta dos dedos a textura do ano a pele da serpente. Pare um pouco e se exponha a todos os resíduos do que ficou do ano.

Tem sempre um tom que fica do caldo dos dias. Acho que este tom é alimentado pela nossa capacidade de não fazer nós durante o ano, e de desatá-los, também. Imagine a cobra cheia de carocinhos, que feia! Mas muitas vezes a gente fica com ressentimentos encaroçando a cobra, mágoas e uma vontade (maldosa?) de não esquecer o que deve ser esquecido. Uma força em reavivar o que precisa morrer e ser abandonado para que continue fluindo.

Penso que a vida tem que ser tecida meio lisa, que a gente deve aproveitar as passagens das pessoas em fios compridos, sem asperezas, que não deixe mais do que cores doces, tons agradáveis para ressoar na passagem do ano.

Não é fácil? Não foi assim 2013? Talvez não tenha sido. Talvez a gente esteja disfarçando calombos na serpente e desejando um 2014 liso e gostoso. O tecido podia ser mais bonito? Mas o próximo tem que dar certo! Eu sei que só vai dar se a gente deixar. Se a gente não segurar mais nada, se a gente conseguir apreciar todas as passagens com contentamento e só.

Tem que agradecer o ano passado. Tem que agradecer até os caroços. E deixar eles para trás para fazer um tecido novo e liso. Uma pele maravilhosa que vá enfeitar nosso universo. Você está fazendo a eternidade.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.