Monjolo

3 dezembro 2013, Comentários 0

monjoloO caminho que a gente faz na vida é uma sequência infinita de oportunidades. Infinita em tempo e no espaço. Infinita de possibilidades para acontecerem dentro destas oportunidades. Para melhor, sempre, embora a gente consiga senti-las como para pior em certas situações.

E vêm as pedras e os tijolos! Sempre vêm. Quero pensar que quando recebo uma tijolada a mão que a atirou foi a minha mesma. Gosto de pensar assim porque isto restringe a mim mesma a carência do perdão e exclui qualquer outra pessoa do vínculo. Não é egoismo. É que eu percebi que o movimento do perdão é algo interno e resulta pura e simplesmente em fluidez e limpeza. Quando a gente consegue perdoar ninguém é propriamente beneficiado. O perdão não é assim um linimento ou uma atadura que você coloque sobre a ferida de alguém. Se alguém se fere neste processo tem que se curar sozinho. O perdão é a obediência a uma lei universal que é a lei do amor.

Então eu me lembro que em algum momento na minha vida fui eu quem moveu o tijolo. Foi de mim que partiu a violência e eu tento lembrar que naquele momento isso foi o melhor que eu podia fazer, deste modo eu joguei o tijolo, como alternativa para todas as outras coisas que poderiam passar pela ideia de qualquer um como possibilidade, mas que foram deixadas de lado quando optei por jogar o tijolo. A gente, também, sempre está apedrejando os outros, e a gente sempre quer ser melhor do que era antes. A gente apedreja o que nos deixa indignados, o que nos maltrata ou nos magoa. Pensando que nisso há cura. Não há cura no apedrejamento.

Eu fico ali estirada com a testa aberta pela tijolada. O sangue escorre. A tijolada me para, me contém, me ata ao chão e ao presente da dor. Não tem o café da manhã que eu porventura tivesse tomado, não tem a conta para pagar que eu pudesse me lembrar. É o momento apenas da dor e do sangue escorrendo. Tudo se torna essência e agora. É um momento de meditação às avessas. Um chamado superior, além de mim. A dor que eu sinto me chama.

E a raiva. A raiva da frustração pela violência, pela brutalidade, pela intrusão. Raiva de ter sido alvo da ignorância dos outros – da minha mesma, que afinal dei a tijolada, mas nesta hora eu não me lembro –  e choro por tudo isso.

No entanto isto não vai acontecer uma vez somente, nem duas. A vida traz tijoladas em ondas, um movimento contínuo em que a minha raiva e a minha frustração são motor para a ignorância de quem dá a tijolada. E eu, frustrada e impaciente solto o braço com toda a força para me acertar o tijolo.

Até quando?

Não dá para esperar que o braço pare o movimento. O movimento do braço iniciou-se há muito quando minha raiva transborda a bacia. O motor já começou a funcionar há horas! Como um pilão ou um monjolo d’água, que espera o peso ficar tão grande quanto o outro braço do outro lado do apoio, e quando o elevou de tal forma que fique impossível o equilíbrio, o braço se eleva ao máximo e a água vaza, e vazando assiste o braço que despenca para macerar o grão do outro lado.

Hoje a raiva move o mundo. Mas dói e sangra.

É preciso levantar uma bandeira branca. É preciso acolher o braço violento, a tijolada. Não se revolte. É isto o que eu penso. Tem que tirar a água. Tem que desviar a fonte. Tem que cortar o movimento no estopim.

E isto é a coisa mais difícil do mundo. O Steiner diria “do medo quero arrancar o domínio e dá-lo ao amor”. Ele me empreste o verso para que eu diga: “da raiva quero arrancar o domínio e dá-lo ao amor”. Só assim o monjolo pára e a testa cicatriza.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.