A Minha Força

17 março 2014, Comentários 0

mãosHaverá durante meu percurso por aqui muita gente que queira guardar para seu próprio uso a grande força que tenho dentro de mim. Empurrarão meus braços para que eles façam aquilo que apraz a sua vontade, abrirão caminhos para que eu deslise sem querer com meus pés e pernas calcando um solo que não é o que eu preciso.

Eu não quero caminhar pelos caminhos que os outros abrem ou usar minha força para qualquer outra coisa que não seja o essencialmente ligado a minha missão.

Não recuso a minha força. Ao contrário! A todos eu ofereço a minha força na forma de serviço, mas este serviço tem que falar desde dentro da minha alma. Eu não posso ser um autômato, um robô ligado a intenção alheia. Eu preciso ir descobrindo minha tarefa própria, desde dentro de mim.

Não posso dormir e acordar sendo vítima das circunstâncias, entregar a minha preciosa vida como palha ao fogo. A vida é de quem, afinal? Tem alguém disposto a terceirizar a própria vontade? Tem alguém de fato interessado em colocar sua própria força a serviço dos outros?

Bom, isto eu digo aqui porque sinto e vejo as pessoas entregando seus órgãos aos venenos que são oferecidos, vejo crianças gastarem horas em treino da ‘desvontade’ – o esvaziamento da vontade e dos impulsos sadios dias na terapia do não fazer, do não por no mundo sua própria vontade, de não descobrir seus propósitos internos.

Vejo homens feitos andarem com pastas nas mãos como robôs, atados a contratos com corporações que não lhes percebem a vida. Vejo que eles respiram pouco, que manifestam pouco seu desagrado por esta ou aquela medida que a empresa apresenta.

Somos menos que homens quando permitimos que alguém fale por nós, faça por nós e daí, desfeita a nossa ligação – aquilo que nos faz inteiros. Desfeita a ordem real de as mãos executarem aquilo de que se encheram o coração e a mente, daí então a mente se ocupa de desfiar pensamentos sem fim repetindo, repetindo e passeando como em um parque de diversões – a mente já não precisa servir ao organismo! O coração se esvazia e se endurece e para abalá-lo somente a rudeza e a brutalidade das imagens colocadas na TV. Somente os jogos embrutecedores de computador nos quais os meninos e as meninas se enrijecem para o sofrimento e a dor dos outros. E as mãos? As mãos sobraram!

As mãos sobram e se somam a braços e pernas que não sabem para que vieram ao mundo. As pernas pouco caminham e quando caminham levam a lugares em que não conseguimos encontrar ninguém. Os braços caem inertes pela falta de relação – onde está o abraço? Não existe mais a disposição para o abraço. E as mãos – as mãos que poderiam salvar o homem, estas mãos repetem gestos vazios de sentido e inúteis.

Precisamos enxotar das nossas vidas a vontade alheia. Respeitar a vontade alheia no orgânico agir dos corpos que habitam, regidas pelos indivíduos que lhes conceberam. Cada um responsável pela sua ação, com um Eu desperto determinando os propósitos e percebendo os sentidos. Cada um conferindo coerência e ordem.

Chega de se submeter às intempéries do nosso tempo. Basta de remédios calmantes do nosso querer. Basta de ter medo de si mesmo ou de enfrentar a vida. Só tem esta, afinal!

Faço aqui uma proposta: que cada um se aposse de si mesmo. Que se examine dos pés à cabeça. Que descubra por onde anda vazando a sua própria vontade, descubra quem se apropriou dela – e não, não vá atrás da vingança porque se alguém está usando sua força é porque você a largou por aí.

Depois disso espero que a gente se encontre pela obra do movimento das nossas pernas, e que a gente consiga se reconhecer e se abraçar satisfeitos.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.