Meu amigo e a humanidade

12 março 2013, Comentários 0

Monet sunriseConversava hoje com um amigo meu. Um homem de coração sensível. Ele vive para auxiliar os outros, é destas pessoas que não conseguem administrar a própria vida, estão cercados de problemas, mas quando sabem que você está em apuros ou tem alguma tristeza, movem o mundo para te acudir. Assim é o meu amigo.

Conversava com ele e entre um assunto e outro ele disse que se programou para morrer aos 50 anos. E de morte natural! Isto ele me disse gesticulando para cima como quem estivesse lembrando Deus do contrato. Na hora eu falei que ele ainda tinha que caminhar pela outra metade da vida. Que até ali ele tinha levado muito boas lambadas para conhecer os dissabores do mundo, e a partir de então ele poderia olhar para os outros e se dedicar a eles sem o sofrimento que hoje ele tinha.

Mas ele retrucou: “eu já vivi muito. Já sofri muito e hoje eu estou sozinho.”

Aquilo me tocou profundamente. Ora, um homem com a capacidade de virar a própria vida de ponta cabeça por conta da necessidade dos outros se sentia passado do ponto de viver e de sofrer e ainda por cima se dizia sozinho.

Bom, minha proximidade com ele não é tanta assim. Se ele se dizia sozinho, eu mesma não poderia afirmar que a minha amizade seria suficiente para ele se sentir apoiado. Senti uma certa responsabilidade pesar nos meus ombros.

Eu tenho para mim que a tarefa da existência de uma pessoa é uma tarefa que não termina até que esta pessoa a tenha abraçado com paixão, mas com serenidade. Não posso concordar com a desistência da vida por alguém que me diz que sofre, que se sente sozinho. Eu mesma não resolvi a tarefa da minha vida. Muito recentemente atinei para ela, aliás. E creio que uma das coisas que nos ajudará muito será não perder a memória da nossa tarefa e levar a vida quase inteira para desconfiar do que deve fazer.

Enfim, olhei para o rosto do meu amigo. Ele – como a maioria de nós, aliás – sofre de algumas doenças. Eventualmente se queixa de dor nas costas. Está ligeiramente acima do peso. É separado de um casamento de quase vinte anos. Tem filhos que precisa sustentar sem ter uma renda estável. Mudou de emprego durante a vida toda fazendo os mais diferentes tipos de trabalho. Acreditem, ele foi de torneiro mecânico, passou por uma coleção de outros serviços e hoje é massoterapeuta.

Não sei como é que ele era como torneiro mecânico nem nenhuma outra das outras tantas profissões dele, mas já experimentei a massagem e posso dizer que é um excelente profissional.

E eu me pergunto: por que uma pessoa boa não se sente pleno e feliz? Por que ele se sente sozinho e sofrido demais? Somos todos assim. Todos nós fazemos tudo na vida, experimentamos todos os relacionamentos com todas as pessoas que nos aparecem pela frente. Muitos são perenes, muitos se quebram, muitos nos quebram a nós mesmos. Não existe ninguém que não tenha nunca errado ou feito uma má escolha. Ninguém passa a vida sem frustrações, ninguém tem segurança em nada, no fim das contas.

Mas eu vejo que agora a gente está cercado de maledicência e tragédia. Não conseguimos ter fé no futuro porque estamos o tempo inteiro nos afogando na lamentação do passado – o nosso e o de todo mundo. Temos a perspectiva de errar e piorar a cada dia. Temos certeza de que não vai dar certo, ou pelo menos duvidamos do sucesso de todas as coisas.

Estamos todos atrás da fórmula para superar o medo e readquirir confiança. Eu não vou permitir que meu amigo desista da vida, mas não posso permitir a mim mesma desistir. Amanhã é outro dia. Hoje eu vou dormir e preciso planejar um dia melhor para amanhã. Quando amanhecer o dia, eu posso fazer dele o que eu quiser, e muitas vezes tenho que ter confiança de que vou conquistar o que planejei.

Hoje eu vi meu amigo abrir a boca e exprimir o cansaço da humanidade toda. Estamos todos fartos da vida, todos nós já sofremos demais, todos sentimos que já basta. Mas ainda há a outra metade da vida. E quando nascermos com o sol amanhã, nasceremos com todas as forças para viver mais cinquenta anos e resolver todas as questões da nossa vida.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.