Meditação sob tortura

28 junho 2013, Comentários 0

Camille-Pissarro-As-Lavadeiras-1885Vocês já ouviram falar naquele tipo de tortura que os psicólogos inventaram e que se usou muito no século 20 de colocar o torturado para fazer uma tarefa por um dia todo e quando ele termina a tarefa seguinte é desfazer o que tinha feito? É de deixar maluco, mesmo. Pense: ‘cave um buraco com três palmos de profundidade, três de largura e dez de comprimento. Tem que ser exatamente assim!’ Bom, o sujeito está preso, esperando tudo de mais horrível que possa acontecer com ele e se agarra à pá com todas as forças da alma: ‘não posso errar, não posso errar, não posso dar motivo nenhum para me olharem torto, para me machucarem…’ Aí ele cava e cava e mede e tal e mostra o serviço pronto. No dia seguinte, logo ao amanhecer o sujeito da prisão devolve para ele a pá e lhe dizendo: ‘tampe o buraco!’

Bom, o preso tem que obedecer, e faz o que lhe é pedido: buraco tampado! Ele se pergunta se o buraco não agradou, se as medidas, o que no fim fez com que lhe pedissem para desfazer o trabalho do dia anterior. Mas cumpre a nova tarefa. No dia seguinte lhe devolvem a pá com uma ordem: ‘cave um buraco de três palmos de profundidade, três de largura e dez de comprimento… ‘ O que será que não deu certo no anterior?, ele poderia se perguntar. Mas em seguida ele ouve: ‘depois desfaça.’ ‘Faça direito e depois desfaça.’ Qual é a razão disso? Termina que o sujeito fica completamente exausto porque em qualquer ocasião da vida a gente fica tentando encontrar um sentido no que está fazendo. O mistério dessa tortura é o fato de ela desintegrar o sujeito – simplesmente não há propósito naquilo que se está fazendo!

A gente precisa de propósito para fazer as coisas. Precisa achar sentido em tudo. Eu conversava com meu cunhado que está aprendendo jiu-jitsu. Anda completamente lanhado, amassado e doído, e completamente apaixonado pelas aulas que ele faz. Ele adora ver as pessoas que estão lá lidando com a mesma coisa que se lida o tempo todo: o domínio do corpo aliado ao domínio da alma. Perdoem-me os que conhecem esta arte mais do que eu – devem ser muitas. Mas me parece que esta é a questão do jiu-jitsu.

Enfim, eu pensava em como uma pessoa consegue superar a própria dor diariamente e voltar à prática com alegria e sempre descobrindo alguma coisa nova, sempre conquistando algo a que dá valor. Ele achou sentido naquilo. Nós, os que estamos de  fora sentimos a dor, a raladura, a frustração de não ser tão bom naquilo, etc. Ele não. Ele acha ótimo. Além de tudo isso existe o bendito propósito das coisas que se mantém ao fundo e pelo quê se faz qualquer coisa.

Não sei por que cargas d’água eu comparei com a vida que tenho levado no último ano: sempre dedicada a manutenção da casa. Tenho tentado inclusive absorver o trabalho extra que foi sempre da minha mãe. Isto significa o tradicional limpar, cozinhar, lavar roupa, lavar louça e enfim, manter a casa sempre funcionando. Pode parecer uma choramingação, mas gostaria de que se abrissem para o seguinte fato: lavar roupa te o propósito de ter a roupa limpa para ser usada de novo, e suja, tem que lavar novamente. Lavar a louça é todos os dias, muitas vezes ao dia. o chão, os vidros, o jardim, a casa é uma repetição diária que dura a vida de uma dona de casa. Imagine você que tem este propósito de fazer um tapete, de vender um quadro, de dar uma aula. imagine que no dia seguinte à aula, à venda, à tecelagem feita, o mesmo tapete devesse ser refeito, o mesmo produto vendido novamente e a mesma aula dada.

Talvez você achasse bom, porque o mesmo produto geraria uma comissão repetida. Pois é, mas no caso da dona de casa, ela não tem o parâmetro do dinheiro – ela não vê nunca uma compensação pelo que faz. A vida de uma dona de casa é quase exatamente o mesmo caso da tortura do buraco. Existe uma diferença, claramente, ela faz para manter a casa e por amor a quem mora dentro dela.

Daí eu pensei nas inúmeras pessoas que vivem vidas inteiras nesta função. Tanto quanto lhe rendem os braços. Somente por amor cuidando e mantendo a casa. Elas não existem na nossa consciência diária. Desaparecem do nosso olhar. Quando somos crianças não percebemos a mágica da comida, da roupa, da cama limpas. Quando adolescentes, reclamamos quando não temos a camisa que queríamos usar passada e no cabide bem na hora que queríamos vesti-la. E quando adultos, reclamamos se pisamos em barro na entrada de casa. Somente o que falta é o que aparece. Isto é torturante!

Mas a casa tem que ser limpa. Alguém tem que fazer a manutenção. Alguém vai assumir não construir nada de original, nada de criativo, nada de extraordinário que pudesse gerar aplausos e reconhecimento, para poder garantir aos outros a possibilidade de vestir-se bem, de ir ao banheiro confortavelmente, de dormir em uma cama cheirosa e acordar disposto para criar coisas extraordinárias e dignas de admiração.

Você poderia dizer que aplausos e reconhecimento são prêmios dos vaidosos. A humanidade sofre disso, então. Todos precisam de aplauso e reconhecimento. Dos mais jovens aos mais velhos, para que sintam prazer de viver e de fazer sempre. Há os que ficarão contentes com um beijo de gratidão. Mas há aqueles a quem a falta do diferente e do propósito claro vá fazer falta. A esses o trabalho repetitivo será uma tortura. Eles vão se desmontar como os torturados diante da repetição infindável de cavar e tampar buracos.

Acho que o que salva é que o ser humano descobre saídas fantásticas para tudo. O propósito não existindo, a gente vai tentar superar-se e tentará transformar a vida em meditação. Vai trabalhar o gesto, vai inventar o novo no nada. Vai dominar a mente espalhada em cinco processos – lavar louça enquanto ferve a água para o almoço. Estender roupa sem deixar o arroz queimar. Encerar a casa enquanto os lençóis estão de molho – tudo acontecendo nos ‘enquantos’. E tudo para ter que ser repetido no dia seguinte, na semana seguinte, no mês seguinte. Tudo sempre a mesma coisa… Mas quem faz em meditação quer que seja uma orquestra, que saia tudo lindo, que sirva bem.

Talvez tenha havido um sobrevivente são àquela tortura do buraco. Um homem que se preocupava com o presente absoluto. Mas, honestamente, quase sempre a gente fraqueja.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.