Maya e o Absoluto

23 fevereiro 2013, Comentários 1

VLUU L100, M100  / Samsung L100, M100Ouvi repetidamente na minha casa que a gente não devia se aborrecer muito com as coisas porque tudo é Maya – Maya aqui é aquele termo que a filosofia oriental usa para denominar o que é ilusão, sonho, criação enganosa, cegueira enfim. E tudo o que eu vejo, sinto, toco, cheiro, enfim, tudo aquilo em que a gente se baseia pra viver é Maya. O que você pensa e sente também é Maya. Bom, eu estava cercada! Como é que se vive se não se pode confiar em nada, absolutamente nada do que você conhece com os sentidos, com o seu sentir e com o seu pensar?

Talvez isto seja saudável de se repetir para uma menina no oriente. E isto pode até lhe cair bem. Talvez a vida dela corra de uma maneira que a natureza material não seja tão significativa, embora igualmente apelativa, com certeza, senão dispensaria o discurso sobre Maya… Enfim, para mim não foi. Eu sofri por não poder me enraizar nas coisas. Eu queria uma terrinha, um chãozinho em que apoiar meus pés e me sentar. Eu precisava confiar em alguma coisa.

Mas o mundo dá muitas voltas. Eu sempre desconfiei da natureza. Parava horas para olhar árvores, especialmente os grandes pinheiros da minha cidade que tinham como que um olhar sóbrio em minha direção, me convidando: “é preciso que você me leve mais a sério para compreender quem sou.” Os bichos me diziam isso. Não conseguia encarar o olhar macio, quente e úmido das vacas sem pensar que nelas habitava alguma consciência especial. Mas de onde viria esta consciência? Eu era incapaz de ver um lagarto ou um sapo e não ficar por muito tempo matutando nesta forma de vida.

Da mesma maneira eu ouvia falar do Uno. O Uno é o que importava – o Absoluto. Era no Uno que a gente precisava meditar. O Uno, afinal, habita todas as coisas e nelas está manifestado. Mas tudo o que você vê é Maya, é ilusão. Você percebeu a contradição? Se o Uno está em tudo, Maya contém o Uno, portanto eu poderia confiar em tudo o que vejo, porque é manifestação do Absoluto!

O fato é que eu nunca coloquei ninguém diante desta pergunta. Talvez se eu tivesse colocado, há mais de vinte anos esta pergunta tivesse sido calada. Talvez respondida ou aplacada. O fato é que eu carreguei esta incerteza pela vida afora. Incerteza que era também tristeza, porque eu me identificava com cada manifestação do mundo natural com fervor apaixonado e calada, porque não me atrevia a confessar esta minha falta.

Eu penso que os meandros da vida colocam a gente precisamente onde a gente deve ficar e durante o tempo necessário. Certa ocasião li num texto de Rudolf Steiner em que ele dizia que tanto faz a pessoa ser materialista ou espiritualista. Tanto faz crer que tudo o que é matéria é Maya e só o Absoluto importa quanto crer que tudo é matéria até a última instância.

Ele dizia que as pessoas simplesmente não perseveram naquilo que acreditam. Se você perseverar o suficiente, observando a matéria até o último vai perceber que nela está manifestada uma inteligência oniabrangente, uma consciência perfeita e ampla que se pode chamar espiritual. Mas que, obviamente, o materialista nomearia de outra maneira de modo a não ceder aos espiritualistas.

Da mesma maneira os espiritualistas se se detivessem nas manifestações do Absoluto chegariam a conclusão que todo o ser se manifesta segundo a consciência perfeita que tudo  plasma.

Fiquei no impasse pela vida inteira até começar a fazer observações de crianças na escola, e mais tarde começar a estudar a Fenomenologia Goeteanística através do Steiner. Estas coisas me deram a plena certeza de que uma coisa e outra são dois lados da mesma moeda. Eu hoje fico tranquila com o olhar das vacas e com a sobriedade dos pinheiros.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    Os termos sânscritos muito usados na linguagem esotérica só são compreendidos intuitivamente. Maya talvez explique melhor a impermanência do que a inexistência da matéria, já que ela está contida no Uno, no Absoluto.