Maturidade

29 setembro 2014, Comentários 0

renoir-dance-at-bougivalQuem tem filhos tem sempre a maravilhosa oportunidade de ver o amadurecimento de cada fase, a superação de cada dificuldade. Tem a oportunidade, mas nem sempre aproveita! A gente tem a misteriosa e incontida mania de querer resolver os problemas dos filhos antes de que eles os resolvam por si só.

Repare. É desse jeito: o menino não consegue sentar, a gente apoia. Não consegue andar, a gente segura. Não consegue falar, a gente dispensa a fala e vai seguindo o dedinho para adivinhar o que querem dizer. Somos um colchão protetor para os nossos pequenos. Não haverá o que os atinja. Mas é preciso ter cuidado. O que seria de nós se não tivéssemos chão que pisar! Chão é ao mesmo tempo sustento e oposição. Chão é o nosso limite mais precioso. Nós precisamos dele a cada passo e embora nunca nos lembremos dele, nós precisamos ter dentro de nós uma certa gratidão por poder andar.

Assim, também, nossos filhos: precisam apoio para o cotovelo e vão levar dias até conseguir girar sobre o próprio corpo. Depois virão uma atrás da outra cada conquista e muitas dificuldades, uma atrás da outra. No entanto, só se conquista pela dificuldade, pelos erros seguidos. Nenhum deles é dispensável, e se, no momento do apoio, nos fugisse o chão – se fugisse o chão, ficaríamos sem chão! – Não conseguiríamos dar o passo! Para cada outra conquista, para cada nova conquista é também assim: é preciso ter chão: o mesmo que rala o joelho, que maltrata o cotovelinho.

Adiante virão outros desafios. Desafios para a alma, desafios para o espírito. Há de tudo no caminho. Lá pelas tantas teu filho vai conviver com outras crianças em casa ou na escola. Vai ter dificuldade em acompanhar os mais velhos, vai ser mais devagar, menos ágil, vai demorar para aprender alguma coisa: a pular corda ou subir na árvore. E você não vai poder ajudar. Porque se você o colocar lá em cima, vai ser um mérito a menos no rol das suas conquistas: ele estará lá em cima, mas não terá sido ele mesmo quem galgou os troncos. Pior! Ele não saberá por onde descer.

E ler, é o mesmo, e perseverar em cada coisa. É sempre o mesmo desafio, é sempre a mesma sensação de conquista. Lá pelas tantas, você já triste de ver que seu filho sofria alguma questão na escola percebe que alguma coisa acontece. Acabou-se aquela dificuldade. Dormindo dentro do seu filho alguma coisa eclode, acorda e se resolve. O menino, ou a menina, é o mesmo, mas já é outro. E graças à capacidade que você teve de ficar quieto esperando esse amadurecimento, agora você já pode testemunhar que ele pode fazer as coisas sozinho, que vai conseguir ir pela vida afora, além do círculo do teu cuidado.

Somos maiores que os braços dos nossos pais, maiores que os sonhos que eles tem a nosso respeito. Andaremos muitas léguas além do horizonte que eles divisaram e, com sorte, poderemos conquistar por nossos próprios passos, terras que eles nunca imaginaram.

Nossos filhos ainda nos trarão a cura para todos os nossos males, mas somente se formos capazes de, pacientemente esperar por sua maturidade. E ela virá. Virá como vem todos os dias em cada processo que nos parece difícil, intransponível. Mas a cada dia descobrimos nossos filhos mais robustos, mais capazes, mais confiantes em si mesmos.

Precisamos apenas nos conter. Somente ficar absolutamente calados e segurar por tudo nossos ímpetos de salvá-los do mundo. Afinal, eles vieram para melhorar o mundo. No tempo de cada um, sem serem atirados aos tigres, mas tampouco embrulhados em papel bolha, nossos filhos amadurecerão e farão aquilo que nós precisamos há tempos.

Por isso a gente só pode dar graças.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.