Maternidade é Iniciação

11 maio 2014, Comentários 0

461px-Ivana_Kobilca_-_PoletjeNão sei se todo mundo vê, mas as mães são mulheres ainda. Por mais que eu tenha procurado nunca achei quem falasse do desenvolvimento espiritual para pessoas que nascem mulheres.

Sim, porque você já imaginou ficar 40 anos sem falar com ninguém como aceta no deserto sendo mulher – me refiro mesmo aos ciclos mensais, à flutuação hormonal, à qualidade gregária. Compreendeu a dificuldade?

Desconfio que este seja um portal de iniciação no desenvolvimento espiritual para mulheres: tornar-se mãe.

É uma iniciação.

Para quê as pessoas querem desenvolver-se, querem uma iniciação? Para crescerem como seres humanos. Para serem transformados de ignorantes em sabidos. De poços de vício em radiante virtude.

Para mim é isso o que acontece com a mulher que se torna mãe. Sim, porque não existe a realidade anterior depois que se passa a ser mãe. A gravidez simplesmente te tira do estado de menina e faz de você mulher responsável pela vida: mãe.

Há outros muitos portais pelos quais uma mulher é iniciada – graças a isso se pode contar com mulheres sábias no mundo. Mas ser mãe é uma iniciação de peso.

Ganha-se o universo da mãe perdendo-se o controle sobre a própria vida – pelo menos da maneira como antes se imaginava. Tudo sofre um enorme e definitivo abalo. Não se trata de perda somente – mas a princípio parece.

Simplesmente depois de se atravessar esse portal, as coisas de antes perdem completamente a cor e o perfume. Não interessam mais. Não importam.

Claro que não acontece de repente. Vai-se deixando de ser quem se é,  se abandona o controle. Já no sexo é assim: o instinto nos leva a buscar o amor em vivências de um poder imprevisível proveniente de alguma sabedoria superior.

Superior sem ser alheia ou estranha. É o despertamento de uma sabedoria que já mora há muito dentro da mulher – entrega e acolhimento. E é tão grande, tão amplo este despertamento que se comunica com tudo o que é feminino no universo.

Daí para frente segue-se na busca da integração amorosa, da conversa muda, do pleno acolhimento, da experimentação do que vai sempre e aos poucos se revelando como Amor – fonte absoluta de conforto e cura, que cada um vai depois reconhecer na face da mãe.

Não pense que é exagero. Assim me parece que ascende a mulher ao patamar de mãe. Será preciso amar um homem. É preciso o nascimento do filho. É preciso a superação do medo – medo de ser pouco, de ser menos, de ser incapaz. Medo da dor, da feiura e da rejeição. Medo de perder-se a si mesma, de se deixar de ser quem se é. Porque a menina que se foi se oferece em sacrifício para ser capaz de perceber o essencial.

A conquista do amor de mãe dará poder para amar de novo e em todos os âmbitos. Daí para frente será possível conceber e exercitar um amor não adivinhado antes – um amor de mãe – e nesta conquista tudo o mais se modifica. O Amor é outro agora, abrange tudo. O amor pode ser vivido e permear todas as coisas. Estar em amor agora confere um poder que se projeta em cada novo gesto e ato.

Será preciso levantar os olhos acima do horizonte, abdicar de tudo. Sacrificar o que parece mais precioso para ser iniciada como mãe. É preciso, no final, saber que ser mãe é tornar-se um ser capaz de libertar os outros. Libertar do medo, da doença, da fraqueza.

Ser mãe é tornar-se capaz de desencantar os filhos para conseguirem ser gente inteira. Conseguir abraçar a todos calorosamente sem querer prendê-los nunca. Oferecer colo. Ser colo, calor, beleza, amor.

Percebe o tamanho da transformação? Em uma vida somente, uma mulher passa de simples menina a fonte perene de amor, completa vivência de conforto e cura. Olhe para o rosto da sua mãe. Está lá.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.