Mas você já sabe tudo!

27 agosto 2013, Comentários 0

espelho escherA gente levanta, lava o rosto e se olha no espelho. Água escorre sobre os olhos desde a testa, sobre as sobrancelhas. A gente olha o rosto refletido no espelho. As mãos tiram o excesso de água dos olhos com precisão – não os machucam, não têm nem força demais nem de menos. A gente busca a toalha sem olhar para ela. A mão sabe onde ir. E enxugam o rosto todo.

A sua roupa veste naturalmente deixando os espaços para os braços, para o peito, a barriga. Você não busca roupas grandes ou pequenas demais. E todo o seu corpo reconhece as escolhas que você faz, porque se algo estiver errado, você troca. O calor, a textura, o equilíbrio, o bem estar geral – está tudo sendo avaliado ao mesmo tempo e a tudo você responde sem muita preocupação. Você está habituado a viver neste corpo. Você conhece suas necessidades de alimento e de água, você sabe quando precisa de sono. E vai levando o corpo adiante, e ele vai registrando a vida a partir de você, com você, moldando-se a você que o molda e se molda a ele.

Somos tão habituados ao nosso corpo que muitos de nós não nos enxergamos. Todos os segredos do universo estão compactados no nosso corpo – os químicos, os fisiológicos, os da criação. Toda a organização do universo pode ser observada no nosso corpo e nem precisamos de microscópios, de ultrassom, de raios-x. Tudo o que poderíamos querer saber sobre hierarquias celestiais, sobre o tempo, sobre as dimensões estão registradas no nosso corpo: nas distâncias das nossas juntas, nas proporções de nossos ossos, nos nossos volumes.

Quão redonda e dura é nossa cabeça e como ela conversa com nosso corpo? Como podemos ver que de cima para baixo ela vai perdendo esta qualidade de dureza e somos mais permeáveis no rosto e ainda temos uma parte móvel abaixo, no queixo. Como isto se repete em nosso corpo de maneira semelhante em cada trecho do nosso corpo? Até as orelhas, os dedos! Para que cada uma destas partes está disposta desta maneira? Qual sua origem e por que se dispõe assim?

E onde minha consciência está mais forte: na frente ou atrás? A direita ou a esquerda? Em cima ou embaixo? O que rege cada uma destas partes e quais são suas tendências? O que eu reconheço como centro de mim e o que isto representa?

Vivemos preocupados em ir buscar no mundo ou nos livros as explicações para nossos questionamentos sobre o melhor sistema de governo, sobre a melhor distribuição de riquezas, e a resposta já existe em nosso corpo. Basta observarmos. Preocupamo-nos com o modo que devemos educar nossos filhos, se devemos exercer autoridade, aceitar sua devoção, e no nosso corpo já existe registro de como as coisas devem ser. Precisamos parar para olhar nossa realidade.

Mas somos diferentes. Alguns altos, outros morenos. Uns cabeludos, outros fortes, outros esguios. Somos uma variedade distinta em número igual ao número de seres humanos que há e temos ainda o mundo todo físico que nos é parte constituinte – podemos enxergar nossas funções nos vegetais e nos animais, podemos reconhecer nossas formas espalhadas pelos outros reinos e isto nos faz reconhecer ainda mais aquilo que perscrutamos com nossas mentes.

Somos ansiosos, porém e a ansiedade é própria da nossa mente. O que nos constitui é sábio e no momento em que conseguirmos aquietar a mente poderemos reconhecê-lo. Não existe medo sem a mente tagarela. Não existe inveja, não existe ciúmes, não existe tristeza ou incerteza. Só a plenitude do convívio com o perfeito.

Mas somos surdos, ou cegos. “Mas retirei os dentes, não tenho uma perna. Mas tenho diabetes e pressão alta!” E ainda assim somos a perfeita imagem do universo criado. Somos em plenitude a criação do início ao fim dos tempos. Somos o testemunho das ideias que ainda não surgiram no mundo e sabemos disso daqui de dentro de onde estamos.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.