Manutenção

11 junho 2013, Comentários 0

Vermeer_-_The_MilkmaidSe eu tivesse ouvido uma sortista no começo do ano ela me teria dito: minha filha, o problema está na falta de manutenção. Há anos você não pensa na manutenção! Manutenção do corpo, das relações, da casa, de nada! Não se vive de grandes inventos. Há que se fazer manutenção.

Talvez na época eu não tivesse dado bola. Sou uma pessoa de inventar coisas diferentes, virar as outras de ponta-cabeça, criar novas, ter ideias e rompantes de mudança. Não sou parada nunca. Mas o que seria do museu do Olho se depois de um tempo ninguém fosse lá lavar os vidros, trocar as lâmpadas queimadas? A vida acontece na manutenção.

Talvez exista a possibilidade de se fazer a criação, como é o caso do arquiteto que fez o museu, talvez você tenha que pegar o balde com o pano e ir lavar os vidros da sua própria criação.

Coisa fantástica de se descobrir depois de velha: a gente se molda indo fazer manutenção. A paciência tem que ser gigante. A disciplina, enorme. Sim, você vai ter que sair sozinha diante daquele gramado inteiro que passou semanas crescendo a custa de sol e chuva. Gramado? Matagal, já, se você não teve tempo de sair antes para cuidar dele.

A questão toda está aí, tem que ter o ritmo certo, tem que ter o intervalo ajustado. Há coisas que precisam de manutenção semanal, outras diária. Há aquelas que você pode visitar anualmente, mas deixe passar para ver o resultado! Há muitas forças de degradação neste mundo. Na tua casa, basta girar a última rosca da válvula da descarga para no segundo seguinte ela ir sonhando já com o dia em que vai emperrar, vazar, dar problema. É o destino de todas as coisas.

Brinco aqui em casa que lavar a louça é meu constante dejá vu. É inevitável! Se nãos e lava a louça não será possível tomar café, almoçar ou mesmo cozinhar na próxima refeição. Fora que a cozinha vai adquirindo aquele aroma típico de comida que ficou horas fora da geladeira. Sim, ela vai apodrecendo na pia, na mesa, e tudo isso acontece porque a manutenção da limpeza se perdeu.

E mesma me dei conta recentemente que fui demitida por falta de manutenção. Não adiantava o extraordinário semanal, o que marcou foi a deterioração. E com os nossos relacionamentos é a mesma coisa. Preste atenção: tudo vai se acomodando. Não é possível a paixão dos primeiros meses. As coisas entram na ordem, em um ritmo. Acabam as surpresas – uma coisa agradável até. Você incorpora a outra pessoa na sua vida, na sua casa, nos seus hábitos. Compra pão para ela, faz comida, arruma a cama. A manutenção física tem que acontecer. E todos os dias há beijos e abraços e conversas bem compridas. Mas há que se dormir. Há que se manter a saúde e garantir a vida longa – manutenção ainda!

Não pense mais no seu marido, pense na vizinha, no seu colega de trabalho, nos seus clientes. Todo mundo precisa de manutenção, também. Para quem vive de fazer arte, manutenção é uma tortura. Mas eu preciso dar a mão a palmatória: a manutenção nos faz fortes, faz com que a gente descubra potencialidades dentro de nós que não eram suspeitas nem por nós nem por ninguém. Garante metros de sucesso bem palpáveis que vêm carregados de auto-estima. Isto além de avisar a cada célula participante que o corpo está vivo e trabalhando. Isto é fantástico! Mesmo as células cerebrais que vão dando as ordens e determinando as estratégias se regozijam do trabalho de manutenção.

E o mais fantástico, aquilo que mais faz bem para gente como eu: no meio do trabalho de horas – que podia ser trabalho de criação artística, e que muitas vezes são gastas em ócio oco que de criativo não tem nada! – no meio disso tudo surge a grande ideia do teu texto, ou uma solução completamente esquecida naquela hora. A gente termina por digerir o que estava entalado na cabeça e cria. Largue a academia e vá cuidar da sua casa. Você não vai perder nada por isso.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.