Madona

11 maio 2013, Comentários 0

Raphael+-+Raffaello+Sanzio+-+The+Alba+Madonna+Curioso me vir um impulso assim para escrever sobre a maternidade na véspera do dia das mães. Claro que estou lendo as milhares de cartinhas e mensagens de amigos para as suas mães, claro que a televisão e as ruas estão cheias. Só que eu não sou muito de ‘dia das mães.’ Mas hoje amanheceu difícil porque a mãe de um amigo muito querido está recebendo pesados medicamentos no hospital.

Eu tenho minha mãe comigo. Eu, mais do que todas as pessoas que conheço, conto com minha mãe até nos dias em que não preciso dela. Conto com o que ela é como coluna de ordem e força, como esteio emocional e amoroso. Vejo a velhice que vai ganhando aos poucos terreno, a brancura, a leveza. Eu sei que este é o movimento da morte que chega, mas não dói.

Mas esse amigo me ligou precisando de ajuda. Uma ajuda que eu quis muito dar, mas que é impossível, na verdade. Não existe ajuda para a perda, e isto é uma coisa de que já falamos antes em outros posts. Perda é perda e só a gente amadurece para ela, contando sempre com a cicatriz que ela deixou. E no caso dele nem era o problema a perda, mas o medo de perder.

Como é que a gente diz: ‘não tenha medo da morte’ quando é a mãe do outro quem está morrendo? Como é que a gente diz que é natural e saudável até que as pessoas morram? Não existe argumento para isso e eu vi ele entrar na minha casa, conversar com meu marido, e ir embora – e não tinha uma palavra para lhe dizer. Como despedida eu o abracei e deixei que fosse pelo portão. Quando ele já estava afastado eu disse para ele: ‘lembre-se de ficar perto de Deus!’ Ele virou para trás, assentiu com a cabeça dizendo que tinha ido à igreja mais cedo e foi embora.

Ficaram na minha mente minhas próprias palavras: ‘lembre-se de ficar perto de Deus!’ Achei palavras meio que prontas. Meio sem cabimento. Nem ‘oi’ direito eu não tinha dado para ele. Mal tinha dado tchau perturbada pela torrente de lágrimas que caiam dos olhos dele. E aí, sem mais:  ‘lembre-se de ficar perto de Deus!’

Bom, eu já tinha dito, e ele de algum modo achou que aquilo fazia sentido.

Depois pensei melhor e veio para mim que quando a gente é pequeno, a gente identifica a mãe da gente com a Grande Mãe Universal. Nossas mães são representantes da Madona. Congregam em si a Sofia, a Virgem e a Mãe. São a trindade superior feminina e que, quando vamos ficando um pouco mais velhos, vai ficando apagada pela imagem sensorial da nossa mãe biológica.

Queria presentear meu amigo com esta lembrança, com esta revelação: nossas mães são a santíssima trindade superior feminina, a divina Madona. Precisamos lembrar que para nós ela é a presença constante do amor primordial perfeito, do colo eterno, do consolo.

Quero agradecer pelas nossas mães todas. Pelas mulheres todas que estão na terra com esta fantástica possibilidade que é de ser uma porta para a consciência da Madona.

Quero abraçar a mãe deste meu amigo e agradecer por ela ter sido mãe para ele. Porque é um investimento de uma vida toda, sem férias nem preguiça a gente ser mãe de alguém.

Quero também agradecer minha filha por ter pulado do Poleiro das Almas e mirado a minha companhia.

Quero muito agradecer a minha própria mãe por me permitir viver dentro da sua maternidade.

Quero agradecer porque eu experimento a maternidade das mulheres do mundo todo, das mães pequenas como eu, de uma filha só, até as grandes mães de muitos filhos, de filhos adotados, de vilas, aldeias, de nações inteiras. Quero agradecer pela revelação da grande Madona.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.