A Liberdade na Prisão

16 julho 2013, Comentários 0

botero mão atadaTenho uma amiga que vai fazer um procedimento cirúrgico para emagrecimento – uma cirurgia bariátrica. Tinha que emagrecer um tanto para a cirurgia, mas não consegue. Bom, eu não conheço ninguém que tenha ficado bem depois da cirurgia, mas não somos assim tão próximas para que eu tenha qualquer influência na sua decisão de fazer o tal procedimento. Sob meu ponto de vista, ela não o faria.

Fazíamos trabalhos manuais sentadas a volta de uma mesa, uns dias atrás e então perguntamos para ela quando é que ela ia finalmente fazer a cirurgia. Uma outra moça perguntou para ela se ela sabia que, uma vez feita a cirurgia, ela teria que cortar os hábitos de alimentação que tem. Ela replicou com autoridade: ‘eu já estou preparada psicologicamente para cortar 50% do que eu como’.

Talvez eu devesse ter ficado quieta. Eu considero muito a liberdade das pessoas, mas naquela hora eu disparei: ‘se você estivesse pronta para comer somente 50% do que come, você poderia estar fazendo isto agora e não precisaria mais da cirurgia bariátrica. Você está preparada para ser obrigada a não comer.’

Tomara que ela me perdoe a opinião atirada assim desta maneira. Eu não quero deixar ninguém desconfortável, mas isto é uma realidade muito certa. As pessoas estão preparadas para serem obrigadas a fazer as coisas. A serem obrigadas a parar de comer porque vai ser fisicamente impossível, mas não estão amadurecidas para nada e nem querem amadurecer. Depende de quê ela parar de comer? E como é que um profissional avalia uma pessoa assim para a cirurgia? Dizer que ela já está pronta. Pronta para quê? Para perder a liberdade e se desautorizar para o resto da vida?

E isto é um sintoma do nosso tempo. Não temos mais força de vontade que é o que garantiria a mudança de um hábito. Não temos mais autoridade sobre nós mesmos e não é a moça sobre seu corpo, somente, é todo mundo sobre tudo. Não conseguimos nos disciplinar para fazer coisas importantes para nós ou tampouco para abandonar hábitos antigos. Dizemos para um médico: me amordace porque eu não tenho domínio sobre mim mesmo. Prenda minhas mãos e meus pés. Eu posso suportar. Mas o que é que isto quer dizer?

Desistimos de nós mesmos. Confessamos a nossa mais completa moleza espiritual dizendo: ‘me prenda, me amarre, me proíba’. Queremos estar sujeitos a um ditador, porque pela nossa própria vontade temos certeza de que não venceremos.

Isto é típico da nossa adolescência crônica! Temos capacidade de perceber que não estamos saudáveis, mas não conseguimos deixar de fazer as coisas que nos empurram para a doença. Somos fracos, omissos e eu temo dizer: somos hipócritas. Exigimos dos outros o que não conseguimos fazer conosco.

Minha proposta é que fizéssemos o contrário. É o que me inspirou esta moça da cirurgia: primeiro conquistaríamos aquilo que vai ser inevitável: vou ser ‘condenada’ a comer 50%? Bom, eu começo a fazer isto agora. Em que isto resultaria no caso dela? Em inevitável emagrecimento! Se fosse assim, então, ela não teria mais que sofrer a cirurgia. E o corpo, aos poucos, conquistaria sua saúde novamente, além de retornar a uma forma mais modesta, que eu suspeito seja na realidade, aquilo que motiva mais uma pessoa a se aventurar a fazer uma cirurgia drástica como esta.

Mas pense o que isto impactaria no nosso sistema: muito menos remédio consumido, muito menos consultas médicas, não haveria o gasto com o hospital, nem com todos os outros membros da equipe. Eu acho suspeitíssimo um acompanhamento como este: me parece que ele se apoia na vaidade e na falta de poder do paciente para ganhar dinheiro! Eu queria, honestamente, estar errada.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.